quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A CRISE NACIONAL E O CARNAVAL.




Este texto foi desenvolvido em janeiro de 2017 para a Coluna do Site de Cultura Popular, o Setor1, mas verifico (com muita tristeza), que ele ainda é muito atual, por isso resolvi reeditá-lo.

Venho através desta coluna, me manifestar sobre o que tenho lido, principalmente nas famigeradas redes sociais, sobre as opiniões de "prós e contras" ao segmento cultural mais integra e congrega artistas no solo brasileiro; que é chamado de Carnaval, segundo Joãozinho Trinta, “a maior manifestação artística a céu aberto do mundo”.

Não vou mencionar a vasta e longínqua história que tem esta manifestação a nível mundial, cito Felipe Ferreira, 2004 e Hiran Araújo 1991, que podem dar uma bom embasamento e orientações desta magnífica manifestação artística. Um verdadeiro fenômeno artístico e cultural, e também social, histórico e antropológico, segundo Eneida, 1987, Rosa Magalhães, 1999 e tantos outros autores... Uma extraordinária fonte de intelectualidade cultural que no Brasil se desenvolveu e criou características próprias graças à miscigenada população (principalmente da união étnica de brancos, negros e indígenas) e que da profusão de seus costumes gestou o ritmo do samba e também as origens do ritmo que embala o carnaval brasileiro. Para estes aspectos, repito, há vasta bibliografia e também é verificado no notório e volumoso trabalho das Escolas de Samba.

Podemos perceber que em nossa sociedade há os que gostam e os que não gostam do carnaval, até aí tudo bem, visto que somos um país plural, o problema grave que verifico neste sentido, se dá ao fato de que, aquelas que não gostam ou não conhecem, ou ainda, que não quererem conhecer a realidade e as especificidades desta complexa manifestação cultural, acabam desferindo comentários desagradáveis, contendo ideias de cunho preconceituoso, culminando com descrédito, atestando o total desconhecimento da realidade que envolve o carnaval como um todo.

O fato é que tenho percebido que alguns, do grupo, dos que não gostam do carnaval, estão aproveitando a atual situação, para malhar, tirando suas rasas considerações acerca de um assunto que abrange uma parcela considerável da população do Brasil que é pobre, de baixa renda ou ainda paupérrima... só por isso! Falamos de carnavalescos, que vivem à margem da sociedade, aquela parcela discriminada, que, na maioria das vezes anda de ônibus, que faz a faxina na sua casa, que ‘bate o ponto’ em alguma fábrica, que paga suas contas em dia, e que encontra nos ensaios, desfiles, shows, apresentações e atividades ligadas ao carnaval, um alento, um divertimento, uma ocupação de ócio criativo, suprindo a falta ou a impossibilidade de acesso aos meios caros e onerosos, e, muitas vezes discriminatórios da arte e da cultura. Há de se ter um considerável poder aquisitivo e econômico para acessar a dança, o teatro, a música, a poesia, a literatura... enfim;

Vale esclarecer para todos que desconhecem as teias de envolvimentos e da possibilidade de suprir um “sem fim” de necessidades da população mais pobre, seja cultural, seja econômica, seja de recreação ou de ocupação a nível de prevenção social – pensando nas áreas de vulnerabilidade – local em que muitas crianças, jovens, adultos e idosos, encontram nestes espaços das escolas de samba, exatamente ali, uma gama de trabalhos sociais e culturais sempre disponíveis. [Oxalá permita que sempre estejam!]

Há quem diga, pejorativamente que é uma cultura de negros, de pobres e de favelados, que é uma esculhambação, uma imundície da sociedade, onde perambulam meretrizes, drogados, bêbados e todo o tipo de infames... Aos que pensam desta forma, não vou entrar no mérito, e digo que é sim um segmento que agrega pobres, favelados, mas também os ricos, os graduados, assim como os analfabetos, os brancos, os negros, os amarelos e toda a palheta de cores e todos os credos, TODOS! Sim, todos, pois é a manifestação mais democrática do planeta!!!! Também digo que este tipo de desqualificação da "cultura do outro" é um fenômeno que interpreto como 'ecos de uma sociedade patriarcal e preconceituosa’. Mas, deixando o preconceito de lado e seguindo uma discussão mais técnica e embasada...

Compreendo que vivemos uma fase muito delicada da vida econômica do nosso país, mas isso se deve às lideranças politicas, das pessoas às quais votamos para, por nós tomar decisões e estas, não estão desempenhando a contendo as suas atribuições... uma vez que o dinheiro dos impostos e das riquezas que geramos (que não são poucas), não estão sendo aplicados de fato nos serviços aos quais foram planejados. Daí surge a “receita burra”: Aumentar impostos! Cortar gastos! Desta forma, com os ditos “cortes de verbas”, os serviços que mais sofrem com este fenômeno é o social, principalmente os ramos da cultura e do lazer, garantidos por Lei Federal, como podemos verificar o que rege a Constituição:

 Capítulo III - Da Educação, da Cultura e do Desporto, na Seção II - Da Cultura:
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afrobrasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
§ 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.
§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:
I - defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II - produção, promoção e difusão de bens culturais;
 III - formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;
IV - democratização do acesso aos bens de cultura;
V - valorização da diversidade étnica e regional.

A maioria dos comentários que leio, verifico algumas pessoas dizendo que os prefeitos devem pegar o dinheiro do carnaval e investir na saúde, para tapar os buracos das ruas, investir em segurança... Daí vem a grande questão: na minha cidade, São Leopoldo-RS, por exemplo, no ano passado não teve carnaval, e, daí vem a pergunta: "como andam os buracos da cidade e a situação da saúde?" Resposta: “Na mesma ou pior...”. Aliás, a verba de 2016 que serviria de fomento ao carnaval de São Leopoldo foi transferida, segundo a presidente da Associação Carnavalesca, para reforma da Biblioteca e do Teatro Municipal... “e cadê a obra?” “...e o pior: “cadê o dinheiro?”...

Seguindo o mesmo preceito da Lei Federal na Constituição, que garante o acesso de todos os brasileiros à Cultura, para o Carnaval de São Leopoldo, que nos serve de exemplo acima, também há uma Lei municipal mais específica que ampara e garante os desfiles carnavalescos e que não foi cumprida pelo prefeito da gestão 2013-2016:

Art. 1º Ficam alterados os artigos 1º e 3º da Lei Municipal nº 5.493, A/2004, passando a vigorarem com a seguinte redação:
"Art. 1º Fica criado o carnaval de rua anualmente no município de São Leopoldo com todas as suas manifestações tradicionais, passa a ser considerado evento oficial do município, com administração, execução e comercialização pelo Poder Público, através da Secretaria Municipal da Cultura e da Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo.
 "Art. 3º Os desfiles de agremiações carnavalescas serão realizados em logradouros públicos deste município, com as condições de infraestrutura e orçamento com recursos alocados e colocados à disposição pelo Poder Executivo através de dotação orçamentária da Secretaria Municipal da Cultura.
§ 1º  Os recursos deverão ser repassados à Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo em 03 (três) parcelas até a data de realização do carnaval, devendo o investimento do carnaval não ser inferior ao do ano anterior."

LEI MUNICIPAL Nº 5.493, de 08 de julho de 2004 - CÂMARA DE VEREADORES DE SÃO LEPOLDO. Emenda Lei municipal 6458/07 da Câmara de Vereadores de São Leopoldo.

Para os que só criticam; somos uma significativa parcela da população, reconhecemos sim que os serviços básicos sociais devam ser garantidos, e é para isso que se trabalha, é por isso que pagamos os impostos, que seguimos as Leis e os Regimentos da Nação, do Estado e do Município: para ter nossos direitos garantidos.

A reflexão que teremos que fazer é de que não é a verba, ou o incentivo, ou o fomento (como queiram chamar) que é a base do carnaval... que esta “merreca” não vai salvar o salário dos servidores, do funcionalismo em geral, das obras públicas, da saúde, de um hospital novo, dos buracos das ruas e avenidas, da criminalidade, do desemprego, da fome, da falta de educação, o aumento de salários dos nossos representantes políticos...

Esta economia do carnaval, vai fomentar e movimenta a cadeia produtiva local girar, vai garantir empregos temporários, vai envolver e disponibilizar para aqueles que vivem nos guetos, nas vilas, favelas, comunidades carentes; acesso aos diversos segmentos culturais que o carnaval engloba, pois tecnicamente há nestes espaços muita literatura, por exemplo, nas pesquisas para desenvolver os enredos, na música, presente no samba, nas aulas de violão, de cavaco, nas aulas de canto, na percussão (ritmos percussivos da bateria), nas artes plásticas presentes nos figurinos, nas esculturas, nas decorações, no visagismo... etc..., há nestes espaços, locais de convívio, de pertencimento às diversas manifestações e atividades culturais que envolvem o universo de uma Escola de Samba, acho triste ver aqueles que só criticam, pessoas ditas inteligentes, que cometem a gafe de falar bobagens por não saber e não conhecer (muito menos reconhecer) que o samba e o carnaval representam o Brasil para o mundo todo.

Dados atualizados: A indústria do carnaval, o nome dado ao conjunto de atividade para produção de fantasias, adereços, e materiais para os carros alegóricos, movimentou cerca de 6,25 bilhões de reais e gerou mais de 20 mil empregos em 2018[i]. Só as escolas de samba do grupo especial gastam cerca de 100 milhões de reais em matéria-prima — sem contar salários e serviços — para pôr seu enredo na avenida.

Para finalizar: o dinheiro do carnaval, não vai resolver nenhum problema financeiro dos outros serviços que o governo estadual e federal e também alguns dos prefeitos (por incompetência) não pagaram... sempre vai faltar! #ficaadica.


FONTES DE CONSULTA
ARAÚJO, Hiram. Carnaval: seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.
BORGES, Maria Eliza Linhares. História e fotografia. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
BURKE, Peter. Testemunha ocular: imagem e história. Bauru: EDUSC, 2004.
CAPELATO, M. Helena. Imprensa na República: uma instituição pública e privada. IN: SILVA, Fernando T. da et al. (orgs). República, Liberalismo, Cidadania. Piracicaba: UNIMEP, 2003, p. 139 – 150.
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
COSTA, Haroldo. Política e religiões no carnaval. São Paulo: Irmãos Vitale, 2007.
DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
DO BRASIL, Constituição Federal. Constituição federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1988.
EGGERS, José Carlos. FIALKOW, Miriam Zeltzer. RAMOS, Eloisa H. Capovilla da Luz. Sociedade Orpheu: da História de um nome a identidade de um clube. São Leopoldo. Edição Sociedade Orpheu.1996.
FERREIRA, Athos Damasceno. O Carnaval pôrto-alegrense no século XIX. Porto Alegre: Livraria Globo, 1970.
FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
KRAWCZYK, Flávio; GERMANO, Iris; POSSAMAI, Zita. Carnavais de Porto Alegre. Porto Alegre: Prefeitura de Porto Alegre. Secretaria Municial de Cultura, 1992.
LAZZARI, Alexandre. Coisas para o povo não fazer: carnaval em Porto Alegre (1870-1915). Edunicamp: Campinas, 2001.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: UNICAMP, 1990.
LEAL, Caroline Pereira. As Mulheres no Reinado de Momo: lugares e condições femininas no carnaval de Porto Alegre (1869-1885). Programa de Pós-graduação em História. PUCRS. Porto Alegre, 2008.
MOEHLECKE, Germano Oscar São Leopoldo Era Assim - o passado pela imagem. Edição do Autor. 1982.
MORAES, Eneida de. Historia do carnaval carioca. Rio de Janeiro: Record,1987.
PINHEIRO, Marlene M. Soares. A travessia do avesso: sob o signo do carnaval. São Paulo: Annablume, 1996.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5, nº 10, 1992.
SOIHET, Rachel. A Subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca da belle-époque ao tempo de Vargas. Rio de Janeiro: FGV, 1988.
VON SIMSON, Olga R. de Moraes. Carnaval em Branco e Negro, Carnaval Popular Paulistano (1914-1988). Campinas. Ed. da Unicamp, EDUSP e Imprensa Oficial, 2007.



[i]UOL, ed. (9 de fevereiro de 2018). «Carnaval deve movimentar R$ 6 bilhões e gerar 20 mil empregos». Consultado em 11 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Estamos enfraquecidos




Estamos enfraquecidos... e de quem é a culpa? É NOSSA!!!

Sim! Uma pesada e doída exclamação! A culpa é sim; toda nossa! Relfexões!

Tenho sido um tanto ácido ultimamente em meus textos, sei disso... mas é tudo o que tenho percebido e sentido nestes tempos difíceis... Logo tenho que fazer uma pequena defesa antes de prosseguir... As coisas estão fora de controle mesmo, e verificamos isso dia a dia, ano a ano, nossas dificuldades tem aumentado de forma exponencial... e potencializa os problemas, e aumenta o drama social o qual estamos vivemos...

Mas porque tudo isso acontece? Acredito que isso acontece e continua acontecendo, pois vem de encontro com a maldição deste país que tem na corrupção uma herança detestável, vinda desde os primórdios da colonização, de um povo que na imensa maioria gosta de “se aproveitar” de tudo e de todos... enfim, de uma série de problemas sociais ligados aos vícios e do descaso que temos como a vida pública e com a saúde social de nosso povo. Há também, associado a tudo isso aquela síndrome de que ‘tudo o que é de brasileiro não presta!’

Estamos cada vez mais discriminados, mais suscetíveis às humilhações e ao descaso, pois deixamos que um sistema intolerante deprecie a nossa cultura popular por exemplo. Um sistema que tem aumentado a modinha da “padronização dos costumes”, que busca um ‘endireitamento’ utópico e a “fórceps”, com uma receita calcada em política+religião, com um vertiginoso crescimento de lideranças religiosas e fundamentalistas, e que, enxergam o mundo segundo os seus dogmas. Um sistema que a cada dia que passa, supervaloriza e importa tudo o “que vem de fora”, e tudo o que é “dos states”, ou seja lá de onde, desde que seja melhor, mais “da hora” ...menosprezando o que é daqui, o que realmente é a genuína cultura brasileira... uma tristeza!

Não quero entrar numa paranoia, de que há uma conspiração arquitetada, mas fico pensando... será que há um plano maior sendo direcionado, que ao longo dos anos e décadas vem deturpando os costumes dos que não são “o oficial da nação” e dividindo a nossa gente, tal qual fizeram aqueles homens com os africanos nos navios negreiros, onde os grupos étnicos de mesma língua e de parentesco eram divididos para que não se rebelassem, para evitar que se unissem contra seus algozes escravagistas...

Hoje em dia, permitam-me fazer uma metáfora... falamos muito em matriz e raiz africana, por exemplo... ao se referir, muitas vezes, orgulhosos da base ou das origens de nossos costumes. Verifico que esta matriz ou raiz gerou um caule robusto, se misturou no malungo, resistiu e cresceu frondoso com a força e a fé e, porque não dizer; com a fibra e a coragem de nossos antepassados? Acontece que vieram as tais ‘modernidades’, e o troco foi se ramificando em diversos galhos... estes galhos foram perdendo algumas de suas propriedades, se modificaram e incorporaram outros costumes, outros saberes... e estes galhos ficaram cada vez mais longe do tronco e mais longe da raiz...

A este frondoso e espesso tronco, humildemente nossos velhos mantiveram, muitas vezes abaixo de muita chibatada, todo o arcabouço cultural, guardando detalhes tradicionais, a base da complexa força dos Orixás, dos movimentos da dança-ritmo-luta da capoeira, dos muitos sons, diversos toques, dos temperos, dos segredos, das folas e das ervas, da catimba, das mandingas, de sua gênese, de lendas, de mitos que explicam o mundo e de tudo mais... conviviam neste cinturão a religião, a capoeira, a culinária, o semba, o jongo, as vestes e noções do vestuário, de costumes e todos os sabores, os cheiros e os ritmos dos mais diversos, e no tronco da tradição, todos eram guardados e, mesmo sendo “pluri”, eram considerados como “uno”, pois estavam sob a mesma égide, ou ainda, sob o mesmo céu-òrun, guardados sob o alá sagrado da proteção divina.

Passado o tempo, as novas gerações experimentaram novas concepções, o homem branco europeu e o sistema estabelecido ofereciam coisas novas, ritmos novos, havia a possibilidade e a aproximação de novos saberes, e, a apropriação de novas culturas, foram transformando o que era tradicional. Assim, sem perceber que deglutiam o ódio e a intolerância, nossos irmãos foram se alimentando destes “novos costumes”; esquecendo, ou mesclando o passado ancestral...

Desta forma, metaforicamente foram se separando os galhos do tradicional tronco. Cada galho cresceu em separado, cada qual com uma daquelas propriedades, que antes eram o todo, o todo que resistia, que era fortalecido pela sabedoria dos velhos antepassados... Cada galho foi se auto afirmando, se desenvolvendo em uma nova e independente característica cultural... e se separaram os fortes laços da herança africana...

Obviamente que devemos levar em consideração a influência das fortes proibições do sistema estabelecido a tudo o que diferente do padrão europeu... Havia uma repulsa a tudo que lembrava aos costumes africanos e africanistas (a música, a dança, o vestuário, a religião...). A policia proibia o samba, o afoxé, a capoeira, a crença e a religião, aliás, prohibia (grafia da época) tudo que fosse ligado aos costumes do povo negro africano, pois entendiam como abominável aos bons costumes europeus e a tez ariana, qualquer manifestação ligada aos negros, pardos e índios da terra... (para se aprofundar mais no assunto da “teoria racial no Brasil” deixo como sugestão a leitura de Nina Rodrigues, João Batista de Lacerda, Silvio Romero e seus pares da época.

A discriminação era de toda a ordem, se adicionavam termos pejorativos. Depreciativos e até debochados para toda e qualquer manifestação, e o pior, a nossa própria gente da periferia, agregava e repetia tais pensamentos e formas de agir, dizendo muitas vezes, por exemplo que “samba era coisa de malandro bêbado”. A capoeira; “coisa de nego briguento”... Houveram muitos casos, principalmente na Bahia, do próprio povo negro e de terreiro, considerar os capoeiras como “bandidos”, por seus irmãos de cor e, muitas vezes, pelas mães de santo, que, por exemplo, abominavam e proibiam os filhos de jogar, pois chamaria a atenção da policia.

Algum desavisado pode dizer: “isso tudo ficou no passado”... NÃO! Não ficou no passado! ...está presente hoje em dia. Posso afirmar, pois noutro dia ouvi de uma mãe de santo da atualidade dizer: “[...]...ah! mas eu detesto carnaval... quem precisa de carnaval...? [...]este povo que só quer festa, que só faz badernas...[...]” uma tristeza ouvir isso... sem contar que a referida mãe de santo, branca, nem ao menos deve saber ou dar importância para estas ligações tradicionais e históricas com o tronco africanista, e o pior, proíbe ou dificulta o acesso de seus agregados de religião à se envolver com o carnaval... (!).

Desta forma, posso afirmar que vamos nos enfraquecendo, e não tendo lideranças fortes e unidas, vamos agindo e “apanhando”, isolados, de um lado os capoeiras, do outro os carnavalescos, de um outro os religiosos de Umbanda, Quimbanda, Candomblé e Nação... e assim por diante, cada qual no seu nicho, sofrendo discriminações, baixas e todo o tipo de infortúnios diante de uma sociedade cada vez mais está inquirindo a “padronização”... Nosso  povo está apático, não quer mais se reunir, está enclausurado, hibernando suas individualidades e caprichos, fechados ao coletivo e que não se deu por conta que a cada dia perde um pouco de sua força, de sua identidade como povo.

Ramão Carvalho
Janeiro/2017