terça-feira, 29 de março de 2022
Eco dos sombrios tempos
quinta-feira, 24 de março de 2022
A alegria social do carnaval
A ALEGRIA SOCIAL DO CARNAVAL
Por Ramão Carvalho [1]
Carnaval
é tempo de alegria, uma data festiva que existe há milênios, conforme os
autores Hiram Araújo, 2003 e Felipe Ferreira, 2005, entre tantos outros autores
e trabalhos memoráveis, com obras magníficas para quem quer se aprofundar em um
tema tão vasto e rico. O carnaval existe em todo o planeta, porém o do Brasil é
o mais expressivo, tendo diversas características, desde os blocos brincantes
até o espetáculo das escolas de samba. O samba e o carnaval são símbolos
culturais do Brasil e para quem é genuinamente patriota, entender o carnaval,
conhecer e reconhecer que esta ópera a céu aberto é como um patrimônio cultural
é um ato de brasilidade. No carnaval há música, poesia, danças, artes plásticas
e muita informação técnica, verdadeiras aulas populares e públicas, que são
manifestadas com grande entusiasmo e devoção pelas comunidades e pelo povo
carnavalesco.
Quando pensamos em carnaval e em escolas de samba, de pronto, imaginamos os desfiles, apoteóticcos de Rio de Janeiro e de São Paulo, principalmente aqueles que são transmitidos pela grande mídia televisiva, porém, muito além dos desfiles, as escolas de samba possuem um grande quadro de pessoas e de intenso trabalho profissional. Com a finalidade de levar alegria e entretenimento para quem assiste aos seus desfiles, as pessoas são fundamentais para a realização destes espetáculos, considerados as maiores expressões culturais do mundo, como diz Aroldo Costa, 2007: “uma verdadeira ópera a céu aberto”, manifestação cultural reconhecida pelo Guines Book, o livro de registro de recordes.
Para
iniciar o ano carnavalesco, geralmente ao término dos desfiles, iniciam-se as
atividades para definir o ano vindouro, daí surgem todas as atividades de
reciclagem dos materiais utilizados (esta atividade cresce, devido aos parcos
investimentos em cultura), a definição do enredo, a pesquisa literária e
histórica que será a base para o samba, para a música, para os figurinos, ou o
desenho das fantasias e das alegorias e de toda a caracterização do contingente
que desfila em uma escola ou bloco carnavalesco.
Até
aí, esta é a uma das atividades macro e que ocupa uma série considerável de
profissionais e voluntários em sua execução. Para formar esta mão-de-obra muito
específica, as escolas que tem sua comunidade engajada e comprometida, formam
estes artistas na sua base, pois não há curso específico para profissionais do
carnaval, é o caso do aprendizado dos cantores e intérpretes, dos músicos e percussionistas,
dos bailarinos e dançarinos, dos aderecistas, figurinistas, e assim por diante,
onde recebem ensinamentos e orientações para a finalidade de se manifestar
artisticamente nos grandes espetáculos.
O
caso da Sociedade Cultural, Beneficente e Carnavalesca Império do Sol, que
desenvolve oficinas de formação e capacitação em praticamente todas as
atividades relacionadas ao carnaval. Esta Escola de Samba, localizada na cidade
de São Leopoldo/RS, recebe em sua sede, denominada de quadra de ensaios,
pessoas de toda a região metropolitana para socializar a alegria do carnaval,
mas também capacita e desenvolve artistas para o carnaval, não só para suas
apresentações, como para outras co-irmãs da região.
As
“oficinas de formação” são das mais diversas, como de bateria (percussão),
decoração de alegorias e adereços, corte e costura, reciclagem de materiais,
danças do carnaval, atividades relacionadas à administração, marketing, etc...
a escola também recebe alunos para estágio não remunerado e também serviços e
trabalhos voluntários. Vale ressaltar que para participar da escola de samba,
não precisa saber sambar, isso é uma lenda! Aqui todos tem sua parcela de
importância, assim como os que sambam, tem os que tocam, cantam, administram,
enfim, um espaço social amplamente democrático.
Fontes:
ARAÚJO, Hiram. Carnaval: seis milênios de história.
Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.
FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval
brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005
COSTA, Haroldo. Politica e religiões no carnaval. Irmãos
Vitale, 2007.
segunda-feira, 21 de março de 2022
Preconceito, racismo e intolerância
Preconceito, racismo e intolerância
O preconceito, o racismo e a intolerância são três problemas psicossociais crônicos que precisamos tratar e curar! As raias destes distúrbios estão nas motivações hediondas de menosprezar, desvalorizar e no desdém dos “diferentes”, ou ainda daquele que “incomoda” a natureza do que ataca. Estas manifestações preconceituosas, racistas e intolerantes, que geralmente passam a injuriar, perseguir, desmoralizar e violentar a todos aqueles que não correspondem com os padrões idealizados do discriminador. Atitudes e comportamentos desonrosos que estão sendo a cada dia mais, visualizados pela grande mídia.
O preconceito, como revela o termo, é o sentimento pré conceituado, sem reflexão ou conhecimento, dotado de ignorância e hostilidade, que é assumido em consequência da generalização apressada do desconhecido, seja pela pequena experiência pessoal ou imposta pelo meio. Esta ação de juízo possui diversas origens e que talvez, tenha na misoginia, o primeiro dos preconceitos, seguidos do preconceito de classe, do econômico, de posição social, na cor de pele, na formação étnica, etc, etc…
O historiador Leandro Karnal nos conta que, quando indagado por uma inglesa, sobre o problema de cruzamento de raças no Brasil, ele respondeu a ela que formação da Inglaterra e do povo inglês também se originou de cruzamentos de celtas, bretões, romanos, anglo-saxões, vikings, normandos, ou seja, também se trata de um povo miscigenado, assim como a maioria das nações europeias, onde é equivocada a noção de pureza de raças. O mesmo Leandro Karnal foi brilhante em identificar que o preconceito contra gays (LGBTQIA+), onde nos diz que: "[…] do ponto de vista psicanalítico, todo ataque homofóbico é sempre o choque entre dois gays, o que vive a sua sexualidade e o que tem vergonha e medo da sua sexualidade, que é aquele que ataca […]".
O racismo é dos problemas citados, o mais nocivo, o mais severo, o mais danoso, um sentimento inexplicável, onde a exclusão, a desigualdade social e a violência, desencadeiam atitudes bizarras e inconcebíveis. Não há argumentação, explicação ou fundamento para estas condutas! O professor Kabenguele Munanga, que luta contra o racismo nos diz que: “[…] todos os racismos são abomináveis e cada um faz as suas vítimas do seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, mas ele tem as suas peculiaridades [...]”. O professor Sílvio de Almeida (2019) caracteriza o racismo no Brasil como sendo estrutural, pois criou um sistema para segregar e manter negros e negras na exclusão, na subalternidade e longe do poder. Abdias do Nascimento e diversos intelectuais discorrem da dificuldade de reinserção na sociedade desde o 1888, onde ações racistas, segregadoras e discriminatórias, desde as práticas mais simples presentes naquelas expressões non gratas, até a violência e a morte, revelando sentimentos cristalizados e reproduzidos por gerações nas ações e nas atitudes tóxicas dos racistas.
A intolerância é outra ação avassaladora dos sentidos, pois é e foi construída e constituída há muitos e muitos anos, por processos de reprodução do ódio, onde os indivíduos, dotados de sua “supremacia”, declaram ser e ter a suas características, cultura, nação e religião, as melhores que existem, as mais “evoluídas”, a natureza linguista a mais rica, a sua religião como a única e a legítima representante de Deus, enquanto que as demais são inúteis, hereges, pagãs, atrasadas… assim a intolerância e o preconceito seguem a pleno, sendo repetidas de geração em geração, amplificando o menosprezo xenófobo e intolerante.
Pode-se afirmar que no Brasil, ser preconceituoso, intolerante e racista é um atestado de burrice! Afirmo isso porque no país mais miscigenado do mundo, não há nenhuma pureza racial, não há autenticidade, puridade ou purismo de cor, de credo, de linguagem, de estilos, de expressão e de cultura. Não somos 100% nada! Precisamos tratar esta doença da alma, para mitigar e curar este mal psicológico e comportamental, o qual não possui nenhuma explicação plausível para a sua existência.
Compreendo
que o preconceito a intolerância e o racismo seguem juntos sua caminhada nociva
e mortal. Sabedores destes defeitos psíquicos, devemos criar dispositivos para
livrar-se destes miasmas e, livres destas imbecilidades que nos dividem, que
violenta a existência dos semelhantes, atos que não agregam valor, que
atrapalham o desenvolvimento social e cultural, assim, livres destas tolices
inexplicáveis, vamos progredir imensamente. Sejamos conscientes de que somos
uma nação colorida em todos os sentidos e que viveremos em um país mais justo,
mais igualitário e mais evoluído quando houver esta compreensão.
CARVALHO, Ramão. Preconceito, racismo e intolerância. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 272, outubro/2021.

