terça-feira, 29 de março de 2022

Eco dos sombrios tempos

 

Eco dos sombrios tempos...


    Hoje, quero falar de respeito, algo cada vez mais raro em nossos dias. Foi se o tempo em que os pais e as mães cobravam dos filhos, desde a infância, posturas e atitudes respeitosas. Foi se tempo das aulas e das lições de etiquetas, de boas posturas e de bons modos e costumes… infelizmente, foi se o tempo...

    As redes sociais estão aí para nos dar múltiplos exemplos da ausência de empatia, da falta de cortesia e de educação. Houve um tempo em que as pessoas prezavam pela elegância, pela compostura e por amabilidade ao próximo. Sabe-se, obviamente, que nunca foi plena a convivência amigável entre os seres “humanos”, mas buscava-se manter uma conduta reta e exemplar.

    O que se verifica hoje em dia é que a disciplina, a gentileza e a civilidade estão demodê. A convivência salutar e amistosa não são mais prezadas, e o pior; vivemos um tempo de sentimentos descontrolados, o comportamento atual se caracteriza fortemente pelo desprezo, pela injúria, pela afronta e na provocação ao próximo, denotando apreço pelas “más posturas sociais”, muitas vezes um cisma e uma implicância gratuita para com o seu congênere.
    
Ainda sobre as redes sociais, as pessoas se fazem valer de um recurso eletrônico e remoto, pois presencialmente talvez não teriam coragem de desferir esta profusão nefasta de manifestações de ódio, de desconsideração, de desaforos, desacatos e tudo mais que gira nas publicações, comentários, contendo nos posicionamentos expressões do tipo: “dane-se!”, “f*da-se!”, entre outras sandices, pairando sobre tudo os palavrões que estão na moda, por nada gritam raivosamente o “porra!”, sem contar os insultos ofensivos e de baixo calão que nem vale a pena repetir ou aqui digitar...

    As modinhas e as musiquinhas “lacradoras” nos perfis e nos aplicativos, trazem frases feitas com mensagens de pura futilidade social e de desconsideração total para com o próximo como por exemplo: “atura ou surta”, “chora mais”, “aceita que dói menos”, “se não gostou, se mata que passa”… etc, etc, etc… um festival de expressões duras e marcadas por afrontas descabidas e desnecessárias... sem comentar as futilidades musicais que estão em voga, um verdadeiro festival de baixarias.

    Estas atitudes estão aguçadas com a famigerada polarização… Esta contraposição teimosa e vazia de ideias está ultrapassada e fecha as portas do progresso, não levando a nada e a lugar nenhum! Sempre houveram divergências e dicotomias no ponto de vista político e no mundo das ideias, mas apelar para baixarias, palavras de baixo calão e destilação de ódio não nos permite avançar, muito pelo contrário. Vê-se nestes dias, cidadãos de bem e tementes a Deus, proferindo aos gritos e berros, palavras odiosas aos seus semelhantes… destas, que são repetidas e repetidas, tornando o som característico e “normalizado” eco dos sombrios tempos...

    Acredito piamente que a humanidade está perdida! E este trem chamado desrespeito está, a cada dia, mais e mais veloz, sendo alimentado pela fornalha da raiva, do ódio, da intolerância e do vazio espiritual de seres sem um sentido emocional, o que pode ser explicado pela futilidade vivida nestes nossos tempos sombrios e tristes. Acredito também que só os investimentos e os incentivos na educação e na cultura possam salvar a nossa nação e a nossa humanidade!

Fonte: 2021-12-07 – CARVALHO, Ramão. Ecos dos sombrios tempos. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 08. São Leopoldo/RS. Edição 274, dezembro/2021.

quinta-feira, 24 de março de 2022

A alegria social do carnaval

A ALEGRIA SOCIAL DO CARNAVAL

Por Ramão Carvalho [1]

 

    Carnaval é tempo de alegria, uma data festiva que existe há milênios, conforme os autores Hiram Araújo, 2003 e Felipe Ferreira, 2005, entre tantos outros autores e trabalhos memoráveis, com obras magníficas para quem quer se aprofundar em um tema tão vasto e rico. O carnaval existe em todo o planeta, porém o do Brasil é o mais expressivo, tendo diversas características, desde os blocos brincantes até o espetáculo das escolas de samba. O samba e o carnaval são símbolos culturais do Brasil e para quem é genuinamente patriota, entender o carnaval, conhecer e reconhecer que esta ópera a céu aberto é como um patrimônio cultural é um ato de brasilidade. No carnaval há música, poesia, danças, artes plásticas e muita informação técnica, verdadeiras aulas populares e públicas, que são manifestadas com grande entusiasmo e devoção pelas comunidades e pelo povo carnavalesco.



    Quando pensamos em carnaval e em escolas de samba, de pronto, imaginamos os desfiles, apoteóticcos de Rio de Janeiro e de São Paulo, principalmente aqueles que são transmitidos pela grande mídia televisiva, porém, muito além dos desfiles, as escolas de samba possuem um grande quadro de pessoas e de intenso trabalho profissional. Com a finalidade de levar alegria e entretenimento para quem assiste aos seus desfiles, as pessoas são fundamentais para a realização destes espetáculos, considerados as maiores expressões culturais do mundo, como diz Aroldo Costa, 2007: “uma verdadeira ópera a céu aberto”, manifestação cultural reconhecida pelo Guines Book, o livro de registro de recordes.

 

    Para iniciar o ano carnavalesco, geralmente ao término dos desfiles, iniciam-se as atividades para definir o ano vindouro, daí surgem todas as atividades de reciclagem dos materiais utilizados (esta atividade cresce, devido aos parcos investimentos em cultura), a definição do enredo, a pesquisa literária e histórica que será a base para o samba, para a música, para os figurinos, ou o desenho das fantasias e das alegorias e de toda a caracterização do contingente que desfila em uma escola ou bloco carnavalesco.

 

Até aí, esta é a uma das atividades macro e que ocupa uma série considerável de profissionais e voluntários em sua execução. Para formar esta mão-de-obra muito específica, as escolas que tem sua comunidade engajada e comprometida, formam estes artistas na sua base, pois não há curso específico para profissionais do carnaval, é o caso do aprendizado dos cantores e intérpretes, dos músicos e percussionistas, dos bailarinos e dançarinos, dos aderecistas, figurinistas, e assim por diante, onde recebem ensinamentos e orientações para a finalidade de se manifestar artisticamente nos grandes espetáculos.

 

    O caso da Sociedade Cultural, Beneficente e Carnavalesca Império do Sol, que desenvolve oficinas de formação e capacitação em praticamente todas as atividades relacionadas ao carnaval. Esta Escola de Samba, localizada na cidade de São Leopoldo/RS, recebe em sua sede, denominada de quadra de ensaios, pessoas de toda a região metropolitana para socializar a alegria do carnaval, mas também capacita e desenvolve artistas para o carnaval, não só para suas apresentações, como para outras co-irmãs da região.


    As “oficinas de formação” são das mais diversas, como de bateria (percussão), decoração de alegorias e adereços, corte e costura, reciclagem de materiais, danças do carnaval, atividades relacionadas à administração, marketing, etc... a escola também recebe alunos para estágio não remunerado e também serviços e trabalhos voluntários. Vale ressaltar que para participar da escola de samba, não precisa saber sambar, isso é uma lenda! Aqui todos tem sua parcela de importância, assim como os que sambam, tem os que tocam, cantam, administram, enfim, um espaço social amplamente democrático.

 

Fontes:

ARAÚJO, Hiram. Carnaval: seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.

FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005

COSTA, Haroldo. Politica e religiões no carnaval. Irmãos Vitale, 2007.



[1] Licenciado em história (Unisinos) e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT).

CARVALHO, Ramão. Alegria social do carnaval. Matéria da contra-capa do Jornal Noticiário. São Leopoldo/RS. Edição 255, março/2020.




segunda-feira, 21 de março de 2022

Preconceito, racismo e intolerância

Preconceito, racismo e intolerância 

O preconceito, o racismo e a intolerância são três problemas psicossociais crônicos que precisamos tratar e curar! As raias destes distúrbios estão nas motivações hediondas de menosprezar, desvalorizar e no desdém dos “diferentes”, ou ainda daquele que “incomoda” a natureza do que ataca. Estas manifestações preconceituosas, racistas e intolerantes, que geralmente passam a injuriar, perseguir, desmoralizar e violentar a todos aqueles que não correspondem com os padrões idealizados do discriminador. Atitudes e comportamentos desonrosos que estão sendo a cada dia mais, visualizados pela grande mídia.

O preconceito, como revela o termo, é o sentimento pré conceituado, sem reflexão ou conhecimento, dotado de ignorância e hostilidade, que é assumido em consequência da generalização apressada do desconhecido, seja pela pequena experiência pessoal ou imposta pelo meio. Esta ação de juízo possui diversas origens e que talvez, tenha na misoginia, o primeiro dos preconceitos, seguidos do preconceito de classe, do econômico, de posição social, na cor de pele, na formação étnica, etc, etc…

O historiador Leandro Karnal nos conta que, quando indagado por uma inglesa, sobre o problema de cruzamento de raças no Brasil, ele respondeu a ela que formação da Inglaterra e do povo inglês também se originou de cruzamentos de celtas, bretões, romanos, anglo-saxões, vikings, normandos, ou seja, também se trata de um povo miscigenado, assim como a maioria das nações europeias, onde é equivocada a noção de pureza de raças. O mesmo Leandro Karnal foi brilhante em identificar que o preconceito contra gays (LGBTQIA+), onde nos diz que: "[…] do ponto de vista psicanalítico, todo ataque homofóbico é sempre o choque entre dois gays, o que vive a sua sexualidade e o que tem vergonha e medo da sua sexualidade, que é aquele que ataca []".

O racismo é dos problemas citados, o mais nocivo, o mais severo, o mais danoso, um sentimento inexplicável, onde a exclusão, a desigualdade social e a violência, desencadeiam atitudes bizarras e inconcebíveis. Não há argumentação, explicação ou fundamento para estas condutas! O professor Kabenguele Munanga, que luta contra o racismo nos diz que: “[…] todos os racismos são abomináveis e cada um faz as suas vítimas do seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, mas ele tem as suas peculiaridades [...]”. O professor Sílvio de Almeida (2019) caracteriza o racismo no Brasil como sendo estrutural, pois criou um sistema para segregar e manter negros e negras na exclusão, na subalternidade e longe do poder. Abdias do Nascimento e diversos intelectuais discorrem da dificuldade de reinserção na sociedade desde o 1888, onde ações racistas, segregadoras e discriminatórias, desde as práticas mais simples presentes naquelas expressões non gratas, até a violência e a morte, revelando sentimentos cristalizados e reproduzidos por gerações nas ações e nas atitudes tóxicas dos racistas.

A intolerância é outra ação avassaladora dos sentidos, pois é e foi construída e constituída há muitos e muitos anos, por processos de reprodução do ódio, onde os indivíduos, dotados de sua “supremacia”, declaram ser e ter a suas características, cultura, nação e religião, as melhores que existem, as mais “evoluídas”, a natureza linguista a mais rica, a sua religião como a única e a legítima representante de Deus, enquanto que as demais são inúteis, hereges, pagãs, atrasadas… assim a intolerância e o preconceito seguem a pleno, sendo repetidas de geração em geração, amplificando o menosprezo xenófobo e intolerante.

Pode-se afirmar que no Brasil, ser preconceituoso, intolerante e racista é um atestado de burrice! Afirmo isso porque no país mais miscigenado do mundo, não há nenhuma pureza racial, não há autenticidade, puridade ou purismo de cor, de credo, de linguagem, de estilos, de expressão e de cultura. Não somos 100% nada! Precisamos tratar esta doença da alma, para mitigar e curar este mal psicológico e comportamental, o qual não possui nenhuma explicação plausível para a sua existência.

Compreendo que o preconceito a intolerância e o racismo seguem juntos sua caminhada nociva e mortal. Sabedores destes defeitos psíquicos, devemos criar dispositivos para livrar-se destes miasmas e, livres destas imbecilidades que nos dividem, que violenta a existência dos semelhantes, atos que não agregam valor, que atrapalham o desenvolvimento social e cultural, assim, livres destas tolices inexplicáveis, vamos progredir imensamente. Sejamos conscientes de que somos uma nação colorida em todos os sentidos e que viveremos em um país mais justo, mais igualitário e mais evoluído quando houver esta compreensão.

Ramão Carvalho.

CARVALHO, Ramão. Preconceito, racismo e intolerância. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 272, outubro/2021.

sábado, 12 de março de 2022

A brasilidade sob uma banda

 

🌿 A brasilidade sob uma banda! 🇧🇷
Falar de brasilidade e das peculiaridades do povo brasileiro é um desafio complexo devido à dificuldade de dar conta do todo. Desde Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e outros tantos intelectuais, que buscaram interpretar o Brasil brasileiro e compreender as configurações da identidade nacional. As composições formativas do nosso povo são as mais complexas possíveis, e me arrisco a dizer que somos o povo mais miscigenado do mundo! Explico: somos fruto de uma mistura de gentes de diversas partes do planeta e a nossa ancestralidade está calcada no hibridismo da mistura de raças, onde todos os brasileiros são mestiços.
Para muito antes da colonização, período histórico, conhecido erroneamente como “descobrimento”, e antes da chegada dos portugueses em 1500, viviam aqui milhares de nações indígenas, com suas línguas, crenças e culturas, numa estimativa de que mais de 2.500.000 indígenas habitavam estas terras no século XVI, que dizimados, chegaram em 1998, num total de 302.000 indivíduos. Depois vieram os portugueses, com sua língua, crença, cultura e a belicosidade da dominação a qualquer custo. Com as tentativas frustrantes de subjugar os indígenas ao trabalho escravo, foram em diversos locais da África para “trazer” os negros, que vieram para cá a contragosto, trazendo suas línguas, crenças e culturas. Todos estes encontros e choques étnicos, confrontando-se e combinando-se as línguas, as crenças e as culturas muito diferentes, o que gestou as características do nosso povo.
Nestes encontros culturais, o que se sabe é que os ancestrais indígenas já praticavam diversos ritos de curas, possuindo o conhecimento das propriedades das plantas, dos vegetais, das folhas, das raízes e das ervas, no uso do fumo e da defumação para afastar espíritos maléficos e também as enfermidades. Sabe-se que os ancestrais africanos, quando trazidos à força para o Brasil, durante quase todo o período da colonização portuguesa, trouxeram na memória, seus costumes e crenças voltados para as forças primordiais da natureza, manifestados nos inkices, voduns e orixás, inaugurando com as matrizes da raça brasileira, a miscigenação de povos e o convívio das crenças e das culturas.
Sabe-se que os escravizados indígenas ou africanos, eram catequizados ou convertidos ao catolicismo cristão. Os africanos, por exemplo, eram “batizados” com nome católico e deveriam dar a volta na árvore do esquecimento e deixar sua família, a sua cultura e seus dogmas, onde eram proibidos por seus senhores ‘brancos-católicos’ de executar seus rituais religiosos. Assim, porém, os astutos africanos sabiamente, num ato de resistência, associaram as semelhanças físicas e equivalências das características dos sagrados deuses negros com os santos católicos.
Este movimento associativo de santos e deuses de diversas origens, inaugurou o sincretismo brasileiro e deu as bases para a ‘materialização’ de uma religião genuinamente brasileira que, mais tarde se chamou de Umbanda (todos sob uma só banda), que agregou também o espiritismo kardecista, os santos cristãos e católicos, os caboclos miscigenados, as nações indígenas, os imigrantes, os orientais, os ciganos, os pretos velhos africanos e a energia dos Orixás. Assim nascia uma religião amálgama, legítima e verdadeiramente nacional, agregando em seus ritos e altares uma mescla de diversas divindades, das mais variadas características, dos mais diferentes povos, numa pluralidade ímpar e representativa, ou seja, sendo uma demonstração de uma brasilidade tolerante e fraterna, sob uma só banda!

Fontes
IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000. https://brasil500anos.ibge.gov.br/.../os-numeros-da...
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Global Editora Ltda, 2015.

CARVALHO, Ramão. A brasilidade sob uma banda. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 275, janeiro/2022.