Estamos enfraquecidos... e de quem é a culpa? É NOSSA!!!
Sim! Uma pesada e doída exclamação! A culpa é sim; toda nossa! Relfexões!
Tenho sido um tanto ácido ultimamente em meus textos, sei disso... mas é
tudo o que tenho percebido e sentido nestes tempos difíceis... Logo tenho que
fazer uma pequena defesa antes de prosseguir... As coisas estão fora de
controle mesmo, e verificamos isso dia a dia, ano a ano, nossas dificuldades
tem aumentado de forma exponencial... e potencializa os problemas, e aumenta o
drama social o qual estamos vivemos...
Mas porque tudo isso acontece? Acredito que isso acontece e continua
acontecendo, pois vem de encontro com a maldição deste país que tem na
corrupção uma herança detestável, vinda desde os primórdios da colonização, de
um povo que na imensa maioria gosta de “se
aproveitar” de tudo e de todos... enfim, de uma série de problemas sociais
ligados aos vícios e do descaso que temos como a vida pública e com a saúde
social de nosso povo. Há também, associado a tudo isso aquela síndrome de que ‘tudo o que é de brasileiro não presta!’
Estamos cada vez mais discriminados, mais suscetíveis às humilhações e ao
descaso, pois deixamos que um sistema intolerante deprecie a nossa cultura popular
por exemplo. Um sistema que tem aumentado a modinha da “padronização dos costumes”, que busca um ‘endireitamento’ utópico e a “fórceps”, com uma receita calcada em
política+religião, com um vertiginoso crescimento de lideranças religiosas e fundamentalistas,
e que, enxergam o mundo segundo os seus dogmas. Um sistema que a cada dia que
passa, supervaloriza e importa tudo o “que
vem de fora”, e tudo o que é “dos
states”, ou seja lá de onde, desde que seja melhor, mais “da hora” ...menosprezando o que é daqui,
o que realmente é a genuína cultura brasileira... uma tristeza!
Não quero entrar numa paranoia, de que há uma conspiração arquitetada,
mas fico pensando... será que há um plano maior sendo direcionado, que ao longo
dos anos e décadas vem deturpando os costumes dos que não são “o oficial da
nação” e dividindo a nossa gente, tal qual fizeram aqueles homens com os
africanos nos navios negreiros, onde os grupos étnicos de mesma língua e de parentesco
eram divididos para que não se rebelassem, para evitar que se unissem contra
seus algozes escravagistas...
Hoje em dia, permitam-me fazer uma metáfora... falamos muito em matriz e
raiz africana, por exemplo... ao se referir, muitas vezes, orgulhosos da base
ou das origens de nossos costumes. Verifico que esta matriz ou raiz gerou um caule
robusto, se misturou no malungo, resistiu e cresceu frondoso com a força e a fé
e, porque não dizer; com a fibra e a coragem de nossos antepassados? Acontece
que vieram as tais ‘modernidades’, e o troco foi se ramificando em diversos
galhos... estes galhos foram perdendo algumas de suas propriedades, se modificaram
e incorporaram outros costumes, outros saberes... e estes galhos ficaram cada
vez mais longe do tronco e mais longe da raiz...
A este frondoso e espesso tronco, humildemente nossos velhos mantiveram,
muitas vezes abaixo de muita chibatada, todo o arcabouço cultural, guardando detalhes
tradicionais, a base da complexa força dos Orixás, dos movimentos da dança-ritmo-luta
da capoeira, dos muitos sons, diversos toques, dos temperos, dos segredos, das
folas e das ervas, da catimba, das mandingas, de sua gênese, de lendas, de mitos
que explicam o mundo e de tudo mais... conviviam neste cinturão a religião, a capoeira,
a culinária, o semba, o jongo, as vestes e noções do vestuário, de costumes e
todos os sabores, os cheiros e os ritmos dos mais diversos, e no tronco da
tradição, todos eram guardados e, mesmo sendo “pluri”, eram considerados como
“uno”, pois estavam sob a mesma égide, ou ainda, sob o mesmo céu-òrun,
guardados sob o alá sagrado da proteção divina.
Passado o tempo, as novas gerações experimentaram novas concepções, o homem
branco europeu e o sistema estabelecido ofereciam coisas novas, ritmos novos,
havia a possibilidade e a aproximação de novos saberes, e, a apropriação de
novas culturas, foram transformando o que era tradicional. Assim, sem perceber
que deglutiam o ódio e a intolerância, nossos irmãos foram se alimentando
destes “novos costumes”; esquecendo, ou mesclando o passado ancestral...
Desta forma, metaforicamente foram se separando os galhos do tradicional
tronco. Cada galho cresceu em separado, cada qual com uma daquelas propriedades,
que antes eram o todo, o todo que resistia, que era fortalecido pela sabedoria
dos velhos antepassados... Cada galho foi se auto afirmando, se desenvolvendo
em uma nova e independente característica cultural... e se separaram os fortes
laços da herança africana...
Obviamente que devemos levar em consideração a influência das fortes proibições
do sistema estabelecido a tudo o que diferente do padrão europeu... Havia uma
repulsa a tudo que lembrava aos costumes africanos e africanistas (a música, a dança,
o vestuário, a religião...). A policia proibia o samba, o afoxé, a capoeira, a crença
e a religião, aliás, prohibia (grafia
da época) tudo que fosse ligado aos costumes do povo negro africano, pois
entendiam como abominável aos bons costumes europeus e a tez ariana, qualquer
manifestação ligada aos negros, pardos e índios da terra... (para se aprofundar
mais no assunto da “teoria racial no Brasil” deixo como sugestão a leitura de
Nina Rodrigues, João Batista de Lacerda, Silvio Romero e seus pares da época.
A discriminação era de toda a ordem, se adicionavam termos pejorativos. Depreciativos
e até debochados para toda e qualquer manifestação, e o pior, a nossa própria
gente da periferia, agregava e repetia tais pensamentos e formas de agir,
dizendo muitas vezes, por exemplo que “samba
era coisa de malandro bêbado”. A capoeira; “coisa de nego briguento”... Houveram muitos casos, principalmente na
Bahia, do próprio povo negro e de terreiro, considerar os capoeiras como “bandidos”,
por seus irmãos de cor e, muitas vezes, pelas mães de santo, que, por exemplo,
abominavam e proibiam os filhos de jogar, pois chamaria a atenção da policia.
Algum desavisado pode dizer: “isso
tudo ficou no passado”... NÃO! Não ficou no passado! ...está presente hoje
em dia. Posso afirmar, pois noutro dia ouvi de uma mãe de santo da atualidade
dizer: “[...]...ah! mas eu detesto
carnaval... quem precisa de carnaval...? [...]este povo que só quer festa, que
só faz badernas...[...]” uma tristeza ouvir isso... sem contar que a
referida mãe de santo, branca, nem ao menos deve saber ou dar importância para
estas ligações tradicionais e históricas com o tronco africanista, e o pior,
proíbe ou dificulta o acesso de seus agregados de religião à se envolver com o
carnaval... (!).
Desta forma, posso afirmar que vamos nos enfraquecendo, e não tendo
lideranças fortes e unidas, vamos agindo e “apanhando”, isolados, de um lado os
capoeiras, do outro os carnavalescos, de um outro os religiosos de Umbanda,
Quimbanda, Candomblé e Nação... e assim por diante, cada qual no seu nicho,
sofrendo discriminações, baixas e todo o tipo de infortúnios diante de uma
sociedade cada vez mais está inquirindo a “padronização”... Nosso povo está apático, não quer mais se reunir,
está enclausurado, hibernando suas individualidades e caprichos, fechados ao
coletivo e que não se deu por conta que a cada dia perde um pouco de sua força,
de sua identidade como povo.
Ramão Carvalho
Janeiro/2017
