segunda-feira, 27 de março de 2023

Prelúdios de 2024


Prelúdios de 2024

O assunto em voga é referente aos duzentos anos ou o bicentenário de São Leopoldo em 2024, aliás, não é para qualquer cidade completar este feito, ainda mais numa constante e próspera trajetória histórica, de tantos fatos narrados, outros tantos ainda para ser descobertos ou reescritos, todos muito importantes e preponderantes para compreendermos a construção das características locais do gentílico capilé e que colaboraram por demais para a identidade da região do Vale do Rio dos Sinos e porque não dizer, do próprio Estado do Rio Grande do Sul.

Vale salientar que, nesta atmosfera preparatória às comemorações dos dois séculos de chegada dos imigrantes, sempre é bom evidenciar de que nem tudo foram flores e não há um romantismo perfeito e harmonioso na história humana. Além disso, a história da cidade não pode se resumir a apenas ou a partir de 1824. O Professor Doutor Martin Norberto Dreher nos ensina que, muito antes dos primeiros 39 imigrantes desembarcarem por aqui, outras tantas iniciativas ocorreram pelo país afora, principalmente com os imigrados germânicos, prefiro me referir assim, uma vez que a Alemanha propriamente dita, ou seja, como uma pátria unificada, viria a ocorrer somente após 1871.

Hoje, para os desavisados que se deparar com os símbolos oficiais citadinos, o hino, a heráldica e o slogan, que estão deveras associados com a germania, negligenciam, por exemplo, a presença dos originários carijós, onde, mais tarde chegaram os açorianos portugueses, que por sua vez trouxeram para a Real Feitoria do Linho Cânhamo os escravizados africanos para fabricar cordas náuticas e também aos demais povos e etnias que por aqui chegaram. Quem só ouve o hino ou se depara com a inscrição “o berço da colonização alemã”, vai pensar que tudo teve origem em 1824 quando desembarcaram os imigrados germânicos, tornando a cidade habitada a partir de então. E não foi assim!

O Governo municipal instituiu através do Decreto nº 9.974, de 26 de outubro de 2021, a criação do Comitê do Bicentenário com a participação de muitas representações e de diversas entidades, buscando contemplar a diversidade plural para acompanhar, construir e para refletir também sobre as comemorações dos duzentos anos, o que, em minha singela opinião, foi uma decisão competente, acertada e representativa, uma vez que muitos detalhes desta história possam ainda ser descobertos, contados e revisitados, gerando uma interpretação construtiva e que represente a todos.

Uma das iniciativas destas ações de contar, enaltecer e disseminar as comemorações da chegada dos imigrantes alemães em São Leopoldo será contada em verso e rima, literatura, música e samba, nas fantasias, nas esculturas, coreografias e adereços da Escola de Samba Império do Sol. Esta corrida cultural que abrange a comunidade como um todo é um rico e potente instrumento para alcançar a todas as pessoas que tem envolvimento com as manifestações de cunho cultural e popular. O enredo, por exemplo, é uma pesquisa literária realizada pelos componentes da escola de samba que, a cada ano, desencadeia a produção do grande espetáculo em forma de dramatização, musical, nas artes plásticas e em múltiplas e infinitas manifestações como seminários, debates, mostras e muito mais.

São Leopoldo Fest com Escola de Samba e Acarajé!

Este conhecimento é disseminado e disponibilizado nos mais diversos locais e para todos os cidadãos que, muitas vezes, residentes nesta cidade que, mesmo sendo inclusiva, não tem ou não acessam os equipamentos culturais como o teatro, a dança, a música e literatura, por exemplo, obtendo na escola de samba um espaço mais amistoso e democrático, com excelentes oportunidades de ligar estas partes, popularizando a história da cidade e, juntando através da recreação cultural, peças de reprodução de saberes artísticos, educacionais, educativos e instrutivos. Desta forma, a população em geral desde a mais versada até a mais simples, vai se divertir, conhecer, produzir e construir juntos a história de nossa cidade através do carnaval.

Fontes

GRÜTZMANN, Imgart; DREHER, Martin Norberto; FELDENS, Jorge Augusto. Imigração Alemã no Rio Grande do Sul - recortes, Okos Editora, Unisinos, 2008.

Texto de Ramão Carvalho, Professor de História e Ativista Cultural para a Coluna JORNAL NOTICIÁRIO JN - Setembro/2021 - Ed. 271 - Pág. 08 COLUNISTAS.