sábado, 2 de setembro de 2023

Representatividade leopoldense

 AFINAL, QUAIS SÃO OS NOSSOS SÍMBOLOS?

Motivado e instigado pelas movimentações em torno do bicentenário da imigração alemã em São Leopoldo, ponho-me a pensar: “-Seriam os imigrantes germânicos os fundadores da nossa cidade?” E por que trago esta indagação? Pois percebo que é do senso comum, as manifestações das mais variadas fontes, tratar e referir-se ao aniversário desta urbe no dia vinte e cinco de julho.

Penso que há um grande equívoco e que devemos aproveitar o ensejo para reparar, e, principalmente pensar em uma solução ao tempo que estamos vivenciando. Penso também que podemos aproveitar todo este aparato festivo preparatório em se tratando das comemorações que servirão para lembrar da chegada desta importante parcela étnica no Brasil e em especial na vinda para a nossa cidade. A seguir, traço algumas ilustrações que vão dar embasamento ao que transcorro aqui, como por exemplo, para além do senso comum já citado, há as representações formalizadas que trazem significados representativos importantes.

Para uma maior compreensão desta crítica opinativa, recorro a Sigmund Freud (1913) em sua análise representativa para a sociedade através dos totens e mitos e trago aqui alguns símbolos oficialmente reconhecidos na Cidade de São Leopoldo. Assim, saliento algumas das especificações simbólicas que são confessas e declaradas oficialmente e que servirão para elucidar algumas afirmações de que existe uma hegemonia da cultura alemã em detrimento às demais culturas da/na cidade.

Podemos começar pelos símbolos e heráldica oficiais aqui extraído do texto que descreve o brasão oficial, que foi gestado e está incrustados de simbologias germânicas, descrito e contido no site da Câmara Municipal de Vereadores, onde em 22/06/1962, o então prefeito de São Leopoldo, Siegbert Saft, sancionou a seguinte lei:

Art. 1º - O Brasão Municipal, criado pela Lei nº 276, de 19 de maio de 1951, representativo do simbolismo do Município, com a configuração do modelo anexo, integrante desta Lei, passa a ter a seguinte característica e definição: [...] "Escudo clássico partido em contrabanda pelo Rio dos Sinos, artéria inicial do povoamento e riqueza da região do atual São Leopoldo, em campo de sinople (verde); em chefe, em campo de gole (vermelho), das armas do Visconde de São Leopoldo, fundador da atual cidade, um leão rompante, de ouro, sustentando um pinheiro de sua cor; em ponta, em campo blau (azul), o monumento ao imigrante, inaugurado em 1924, em prata, Coroa mural, de prata, de quatro torres. O todo ladeado por ramos de acanto em ouro, gole e blau".

Recorremos também a outro símbolo, o Hino da Cidade de São Leopoldo, intitulado “A marcha do Imigrante”, também discorre tão somente sobre a colonização alemã, desprezando todas as outras etnias, peça esta que Câmara Municipal de São Leopoldo reconheceu por Lei Municipal de n.º 4.257, de 26/06/1996, como segue:

[...] LEI MUNICIPAL Nº 4.257, DE 26/06/1996 [...] Institui "A MARCHA DO IMIGRANTE" como sendo o Hino Oficial do Município de São Leopoldo.[...] Faço saber que a Câmara Municipal aprovou e eu sanciono e promulgo a seguinte Lei:Art. 1º - Fica instituída a letra e a música de "A MARCHA DO IMIGRANTE" como sendo o Hino Oficial do Município de São Leopoldo. [...] Art. 2º - Torna-se obrigatório o ensino e a execução do hino "A MARCHA DO IMIGRANTE" nas escolas da rede municipal de ensino de São Leopoldo [...] Art. 3º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. [...] Prefeitura Municipal de São Leopoldo, 26 de junho de 1996.

Ainda sobre as caracterizações oficiais da cidade, a frase ‘slogan’, termo que deveria servir para caracterizar a todos de forma sintética e identificar a principal definição do lugar, contém a expressão: “São Leopoldo, berço da colonização alemã” e é outra peça que está declarada e materializada nas documentações oficiais e nos mais diversos lugares e usos da localidade.

Seguindo na busca pelas construções imagéticas equivocantes das peças representativas, encontramos no site mais popular da internet, informações da cidade e onde está lá declarado, na aba das informações técnicas, no campo “História” a fundação: 25 de Julho de 1824, onde:

[...] A data de 25 de julho de 1824 passou a ser considerada a data de fundação de São Leopoldo. Instalados na feitoria até que recebessem seus lotes coloniais, este núcleo foi batizado "Colônia Alemã de São Leopoldo" em homenagem à Imperatriz Leopoldina, a esposa austríaca de Dom Pedro I. Nesta época, era então governador do estado o Visconde de São Leopoldo. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/São_Leopoldo

Percebam que há um esquecimento ou ainda um apagamento, talvez proposital, das demais etnias que formaram o povo leopoldense. Não há nenhuma citação aos bravos carijós, aos desbravadores lusitanos ou ainda aos trabalhadores africanos que já estavam por aqui quando os alemães chegaram. Não há uma estrofe, nenhum slogam, nenhum brasão ou qualquer outra menção a que estes descendentes miscigenados possam se sentir representados. Assim, necessário se faz uma análise reflexiva na busca por reparação e retratação. O que acham?

Texto de Ramão Carvalho, Professor de História e Ativista Cultural para a Coluna JORNAL NOTICIÁRIO JN - Agosto/2023 - Ed. 291 - Pág. 11 COLUNISTAS.
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segunda-feira, 27 de março de 2023

Prelúdios de 2024


Prelúdios de 2024

O assunto em voga é referente aos duzentos anos ou o bicentenário de São Leopoldo em 2024, aliás, não é para qualquer cidade completar este feito, ainda mais numa constante e próspera trajetória histórica, de tantos fatos narrados, outros tantos ainda para ser descobertos ou reescritos, todos muito importantes e preponderantes para compreendermos a construção das características locais do gentílico capilé e que colaboraram por demais para a identidade da região do Vale do Rio dos Sinos e porque não dizer, do próprio Estado do Rio Grande do Sul.

Vale salientar que, nesta atmosfera preparatória às comemorações dos dois séculos de chegada dos imigrantes, sempre é bom evidenciar de que nem tudo foram flores e não há um romantismo perfeito e harmonioso na história humana. Além disso, a história da cidade não pode se resumir a apenas ou a partir de 1824. O Professor Doutor Martin Norberto Dreher nos ensina que, muito antes dos primeiros 39 imigrantes desembarcarem por aqui, outras tantas iniciativas ocorreram pelo país afora, principalmente com os imigrados germânicos, prefiro me referir assim, uma vez que a Alemanha propriamente dita, ou seja, como uma pátria unificada, viria a ocorrer somente após 1871.

Hoje, para os desavisados que se deparar com os símbolos oficiais citadinos, o hino, a heráldica e o slogan, que estão deveras associados com a germania, negligenciam, por exemplo, a presença dos originários carijós, onde, mais tarde chegaram os açorianos portugueses, que por sua vez trouxeram para a Real Feitoria do Linho Cânhamo os escravizados africanos para fabricar cordas náuticas e também aos demais povos e etnias que por aqui chegaram. Quem só ouve o hino ou se depara com a inscrição “o berço da colonização alemã”, vai pensar que tudo teve origem em 1824 quando desembarcaram os imigrados germânicos, tornando a cidade habitada a partir de então. E não foi assim!

O Governo municipal instituiu através do Decreto nº 9.974, de 26 de outubro de 2021, a criação do Comitê do Bicentenário com a participação de muitas representações e de diversas entidades, buscando contemplar a diversidade plural para acompanhar, construir e para refletir também sobre as comemorações dos duzentos anos, o que, em minha singela opinião, foi uma decisão competente, acertada e representativa, uma vez que muitos detalhes desta história possam ainda ser descobertos, contados e revisitados, gerando uma interpretação construtiva e que represente a todos.

Uma das iniciativas destas ações de contar, enaltecer e disseminar as comemorações da chegada dos imigrantes alemães em São Leopoldo será contada em verso e rima, literatura, música e samba, nas fantasias, nas esculturas, coreografias e adereços da Escola de Samba Império do Sol. Esta corrida cultural que abrange a comunidade como um todo é um rico e potente instrumento para alcançar a todas as pessoas que tem envolvimento com as manifestações de cunho cultural e popular. O enredo, por exemplo, é uma pesquisa literária realizada pelos componentes da escola de samba que, a cada ano, desencadeia a produção do grande espetáculo em forma de dramatização, musical, nas artes plásticas e em múltiplas e infinitas manifestações como seminários, debates, mostras e muito mais.

São Leopoldo Fest com Escola de Samba e Acarajé!

Este conhecimento é disseminado e disponibilizado nos mais diversos locais e para todos os cidadãos que, muitas vezes, residentes nesta cidade que, mesmo sendo inclusiva, não tem ou não acessam os equipamentos culturais como o teatro, a dança, a música e literatura, por exemplo, obtendo na escola de samba um espaço mais amistoso e democrático, com excelentes oportunidades de ligar estas partes, popularizando a história da cidade e, juntando através da recreação cultural, peças de reprodução de saberes artísticos, educacionais, educativos e instrutivos. Desta forma, a população em geral desde a mais versada até a mais simples, vai se divertir, conhecer, produzir e construir juntos a história de nossa cidade através do carnaval.

Fontes

GRÜTZMANN, Imgart; DREHER, Martin Norberto; FELDENS, Jorge Augusto. Imigração Alemã no Rio Grande do Sul - recortes, Okos Editora, Unisinos, 2008.

Texto de Ramão Carvalho, Professor de História e Ativista Cultural para a Coluna JORNAL NOTICIÁRIO JN - Setembro/2021 - Ed. 271 - Pág. 08 COLUNISTAS.