quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O multiculturalismo que dá tempero ao Brasil brasileiro.

 


Quadro "Operários" de Tarsila do Amaral. 1933
Fonte: https://www.culturagenial.com/quadro-operarios-de-tarsila-do-amaral/ 

O tempero de um Brasil brasileiro

    O multiculturalismo é a convivência de diferentes culturas em um mesmo local ou ambiente. Este fenômeno define muito o nosso país, devido aos mais diversos grupos étnicos e culturais que formaram e formataram as características do Brasil. Estas culturas estão interligadas entre si, querendo ou não, rejeitando ou não, há muitos indícios e podemos constatar este sortimento, esta pluralidade no nosso dia a dia. Esta multiplicidade de culturas são heranças de nossos ancestrais indígenas, europeus e africanos num primeiro momento, depois, houve uma profusão de imigrantes que para cá vieram, trazendo suas
experiências, culturas, costumes e saberes.

    Ao passear pelo vasto Brasil, termo que significa ‘da cor da brasa’, local onde há o hábito de se banhar com frequência, costume ancestral tupi, guarani... indígena, o banho que era de rio, no Caay, Ijuí, Jacuí ou no Itapuí (o nome original do Rio dos Sinos), hoje impróprio para esta prática, devido a severa poluição da vida urbana. Banhando-se nas águas salobras e salgadas de Tramandaí, Imbé, Camboriú, Guaropaba, Guarujá, Copacabana, Ipanema, seja por toda a Guanabara, de Piratininga, Caju, Niterói até a Tijuca, de Itabapoana até Paraty, por toda a extensão do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, ou aindado chavão; do Oiapoque ao Chuí, percebemos em todos eles, vocábulos indígenas.

    Poderíamos também, ir pelos caminhos dos Quilombos, à Gamboa, Mangueira, Palmares, ao Pelourinho, o Cais do Valongo, são porém, topônimos escassos, mais escassos ainda se tratando do Estado do Rio Grande do Sul, onde o nome de ruas, rios e lugares, possui 99% derivados de culturas indígenas e lusitanas, relegando a raríssimas evidências aos nomes de localizações ligados aos antepassados e à cultura africana. Há de se ressaltar que os nomes de lugares identificando a herança portuguesa e europeia é massiva, o que denota a supremacia e o domínio desta cultura sobre as demais.
Ao seguir nosso passeio pelo Brasil multicultural, vamos nos deparar com cheiros e sabores das mais variadas e diversas iguarias, como a pipoca, o guaraná, a moqueca, a paçoca, a mandioca (para alguns o aipim), o chocolate, o milho, o mingau, o churrasco, o chimarrão e tantas outras, tipicamente indígenas. Na culinária africana, o vatapá, o acarajé, o cuscuz, o amalá, o abará, a canjica, a feijoada, o mungunzá e tantas outras. Nos sabores europeus vieram o quindim, a cuca, o chucrute, a salsicha, os queijos, as massas... etc, etc, etc.

    Na música popular brasileira – MPB – há o samba, a bossa-nova, o axé, o maracatu, o sertanejo (indivíduo miscigenado, segundo Darcy Ribeiro, conhecido como caipira, um outro termo indígena), os ritmos caboclos do frevo, o forró, o baião, o xote o xaxado, o maxixe, o lundu, etc, etc. As vestimentas também possuem influências culturais, desde a “pouca roupa” até aos suntuosos trajes, passando pelo abadá, o torço, o turbante, a kafka, etc. Ao ir à praia, veste-se os termos de maioria africanos, como o bikini, a tanga, a sunga a canga.

    Yeda Pessoa de Castro nos conta da influência das línguas africanas no português brasileiro, em que os termos estão completamente integrados ao sistema linguístico do país, onde muitas das palavras chegam a substituir, como é o caso de giba por corcunda, bilha por moringa, trapilho por molambo, insultar por xingar, dormitar por cochilar, óleo de palma por dendê, nádegas por bunda, vespa por marimbondo, sinete por carimbo, etc. Também merece destaque a palavra caçula, por ser conhecida e usada por todos os brasileiros para dizer “filho mais jovem”, que antes da vinda dos africanos, o termo utilizado até então era benjamin e só era empregado para o filho menino mais moço, não havendo tal termo utilizado para as meninas. Acrescentam-se os termos “o dengo do/a caçula mimado/a”.

    Notem que nossa resumida viagem pelos vocábulos e expressões estão calcados na multiculturalidade e notem também que ela nos constitui, e todos nós, brasílicos miscigenados fazemos parte deste “todo cultural”, pois somos frutos de misturas, da complexa e infindável combinação de culturas, gestando este que é meu, este é teu e este que é nosso, tempero verde, amarelo e azul de um Brasil brasileiro.

Fontes mencionadas

CASTRO, Yeda Pessoa de. A influência das línguas africanas no português brasileiro. Secretaria Municipal de Educação- Prefeitura da Cidade de Salvador, p. 3-12, 2005.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

CARVALHO, Ramão. O tempero de um Brasil brasileiro. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Fevereiro/2022.

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