sábado, 12 de março de 2022

A brasilidade sob uma banda

 

🌿 A brasilidade sob uma banda! 🇧🇷
Falar de brasilidade e das peculiaridades do povo brasileiro é um desafio complexo devido à dificuldade de dar conta do todo. Desde Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e outros tantos intelectuais, que buscaram interpretar o Brasil brasileiro e compreender as configurações da identidade nacional. As composições formativas do nosso povo são as mais complexas possíveis, e me arrisco a dizer que somos o povo mais miscigenado do mundo! Explico: somos fruto de uma mistura de gentes de diversas partes do planeta e a nossa ancestralidade está calcada no hibridismo da mistura de raças, onde todos os brasileiros são mestiços.
Para muito antes da colonização, período histórico, conhecido erroneamente como “descobrimento”, e antes da chegada dos portugueses em 1500, viviam aqui milhares de nações indígenas, com suas línguas, crenças e culturas, numa estimativa de que mais de 2.500.000 indígenas habitavam estas terras no século XVI, que dizimados, chegaram em 1998, num total de 302.000 indivíduos. Depois vieram os portugueses, com sua língua, crença, cultura e a belicosidade da dominação a qualquer custo. Com as tentativas frustrantes de subjugar os indígenas ao trabalho escravo, foram em diversos locais da África para “trazer” os negros, que vieram para cá a contragosto, trazendo suas línguas, crenças e culturas. Todos estes encontros e choques étnicos, confrontando-se e combinando-se as línguas, as crenças e as culturas muito diferentes, o que gestou as características do nosso povo.
Nestes encontros culturais, o que se sabe é que os ancestrais indígenas já praticavam diversos ritos de curas, possuindo o conhecimento das propriedades das plantas, dos vegetais, das folhas, das raízes e das ervas, no uso do fumo e da defumação para afastar espíritos maléficos e também as enfermidades. Sabe-se que os ancestrais africanos, quando trazidos à força para o Brasil, durante quase todo o período da colonização portuguesa, trouxeram na memória, seus costumes e crenças voltados para as forças primordiais da natureza, manifestados nos inkices, voduns e orixás, inaugurando com as matrizes da raça brasileira, a miscigenação de povos e o convívio das crenças e das culturas.
Sabe-se que os escravizados indígenas ou africanos, eram catequizados ou convertidos ao catolicismo cristão. Os africanos, por exemplo, eram “batizados” com nome católico e deveriam dar a volta na árvore do esquecimento e deixar sua família, a sua cultura e seus dogmas, onde eram proibidos por seus senhores ‘brancos-católicos’ de executar seus rituais religiosos. Assim, porém, os astutos africanos sabiamente, num ato de resistência, associaram as semelhanças físicas e equivalências das características dos sagrados deuses negros com os santos católicos.
Este movimento associativo de santos e deuses de diversas origens, inaugurou o sincretismo brasileiro e deu as bases para a ‘materialização’ de uma religião genuinamente brasileira que, mais tarde se chamou de Umbanda (todos sob uma só banda), que agregou também o espiritismo kardecista, os santos cristãos e católicos, os caboclos miscigenados, as nações indígenas, os imigrantes, os orientais, os ciganos, os pretos velhos africanos e a energia dos Orixás. Assim nascia uma religião amálgama, legítima e verdadeiramente nacional, agregando em seus ritos e altares uma mescla de diversas divindades, das mais variadas características, dos mais diferentes povos, numa pluralidade ímpar e representativa, ou seja, sendo uma demonstração de uma brasilidade tolerante e fraterna, sob uma só banda!

Fontes
IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000. https://brasil500anos.ibge.gov.br/.../os-numeros-da...
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Global Editora Ltda, 2015.

CARVALHO, Ramão. A brasilidade sob uma banda. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 275, janeiro/2022.

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