quinta-feira, 14 de abril de 2022

Os nossos Kilombos urbanos

Foto: registro visual de alguns dos muitos enredos que escrevi.

Os nossos Kilombos urbanos

Pela passagem do dia 11 de Abril, na comemoração do Dia da Escola de Samba, quero fazer uma homenagem a estes kilombos de resistência, em especial aos guetos de minha cidade. Estes locais de manifestação artística, que atualmente, resistem a uma opressão e uma demonização por parte da sociedade intolerante. Esta perseguição, possui muitas interpretações, mas a que mais se enquadra é a do preconceito, seguido de uma ignorância total, além da intolerância e da discriminação da cultura que é feita pelo povo, que aliás, é a maior expressão artística do Brasil e um dos símbolos culturais mais expressivos de nosso país: o carnaval.

Neste mundo carnavalesco, neste universo microcosmo da periferia, aprendi muito sobre a brasilidade e conheci o carnaval cultural na Escola de Samba Império do Sol, escola que foi a minha base para quase tudo que sei. Lá fui do apoio geral, fui coordenador e figurante de ala, saí da ala dos passistas, fui mestre sala, temista e dirigente em diversos cargos. Agremiação fundada pelo saudoso Rei Momo Beto, espaço onde fiz muitas amizades, que se fosse nominar, renderiam páginas e mais páginas. Foi para mim uma escola de samba e da vida!

Também me considero parte da Estação Primeira de São Léo, escola de samba da família da nossa saudosa Tia Dora, espaço de muitas outras amizades que por lá eu fiz, escola de samba da região central da cidade, gueto de tenacidade cultural. Sou também Acadêmicos Verde e Rosa, uma vez que lá tem muitos dos meus amigos e é a escola do coração do meu saudoso irmão Tom Astral. Lugar onde já escrevi enredo, dei oficinas de danças de mestre-sala, porta-bandeira e porta-estandarte, num projeto da Secretaria Municipal de Cultura, chamado de “Descentralização da Cultura”, que revelou destaques que estão até hoje figurando as apresentações das escolas de samba da região.

Na Imperatriz Leopoldense, que tive a honra de conduzir seu pavilhão, e que agora reformulada, com a mesma base e sede, agora chamada de Leões da Feitoria. Já desfilei na União da Vila do Saudoso passista Bira, onde o ajudamos em diversos carnavais, na coordenação, revisando enredos e organogramas. Sou também Imperadores do Sul, quando tenho por lá os meus amigos e frequentadores de minhas oficinas de danças do carnaval e que por lá abrilhantam as apresentações da escola, assim como de muitas amizades da Cohab Duque e cercanias, ponto de resistência cultural na zona sul da cidade.

Sou também Alambique Leopoldense, a considero especial por atender com carinho as pessoas do lugar onde vivi e morei e também por sua queridíssima matriarca que a todos acolhe. Inclusive fomos com a Escola de Samba Apito de Ouro da Cidade de Tapes/RS na sua fundação e no lançamento da escola, é um local onde estão muitos dos meus amigos e de gente que resiste produzindo cultura.

Nos meus enredos e pesquisas já fui muitas escolas de samba, desde a Imperadores do Samba, Imperatriz Dona Leopoldina, Embaixadores do Ritmo, Copacabana, Samba Puro e Bambas da Orgia na cidade de Porto Alegre. Já fui Unidos do Guajuviras de Canoas, Gigantes da Orla de Arroio do Sal/RS, Vila Isabel de Viamão, Unidos das Vilas de Venâncio Aires, Imperatriz da Zona Norte de Cruz Alta, Unidos do Capão e Império do Vale de Sapucaia do Sul, Apito de Ouro e Corujão de Tapes, Asas da Liberdade de Estância Velha, Cruzeiro, Protegidos e Marujos de Novo Hamburgo, entre tantas outras entidades, quilombos de resistência cultural.

Ressalto que para mim, o dia da escola de samba deva, na realidade, ser comemorados todos os dias, uma vez que estes organismos são kilombos de perseverança, nunca param, nunca desistem e estão sempre a planejar e programar o ano vindouro, com um novo enredo e pesquisas, na construção de novas fantasias, de uma nova música, que é o samba enredo, as alegorias, as coreografias, enfim, unindo e reunindo a comunidade em torno da construção de um espetáculo, mas que vai para muito além disso, prestando ajuda e assistência social, transformando muitos destes em profissionais para pensar e preparar uma nova apresentação, capacitando pessoas, gerando renda, produzindo cultura e encantando as pessoas.

_Kilombo ou quilombo é o nome dado aos espaços e comunidades que se formaram a partir de situações de resistência territorial, social e cultural no Brasil. Os primeiros quilombos surgiram no período colonial por pessoas negras escravizadas que se refugiavam em busca de liberdade e que se organizavam em comunidades autônomas.

Fonte: 2022-04-12 – CARVALHO, Ramão. Os nossos kilombos urbanos. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 09. São Leopoldo/RS. Edição 278, abril/2022.

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