Afeição aos néscios e mentecaptos
O senso de convívio e respeito individual e coletivo
estão esvaindo-se. Por que constato isso? Porque as pessoas estão pensando
apenas por seu ponto de vista e por suas ideologias em detrimento a todo o
saber estabelecido e isso é muito nocivo e prejudicial. Acabou aquela máxima
que nos foi ensinada: “a minha liberdade acaba, quando começa a do meu
semelhante”, ou seja, posso e tenho o direito de me expressar, de ter opinião,
desde que não ofenda, não agrida ou não interfira no sentimento e nas
convicções de outrem.
Constato que estamos vivendo um tempo muito estranho,
onde, a qualquer custo, se endeusa e se supervaloriza entes antes
desconhecidos, estranhos, vazios de argumentos e de propostas e, mesmo tendo
uma vida política e social nula ou ausente de compromissos com a população,
simplesmente o seguem em massa, por ser talvez, aquele capaz de derrotar os
seus antagonistas ou “diferentes”. Estes políticos ganham notoriedade por
utilizar frases feitas, com pouca ou nenhuma proposta, com chavões sobre família,
pátria e religião e, mesmo sem ideias claras, vão somando milhões de adeptos e
seguidores.
Quero muito entender como pessoas inteligentes e
capacitadas conseguem idolatrar idiotas que vivem a vida toda na política e
nunca, nunca sequer aprovaram um projeto de relevância em prol da população...
repito: umzinho sequer! Quero muito
entender o que passa na cabeça de quem venera os imbecilóides, estes que só
falam asneiras e não conseguem manter uma linha de raciocínio, muito menos se
manifestar de forma pacífica, educada e ordeira, sem ser ríspido, sem estar
sempre na defensiva e utilizando a prática da ofensa para abandonar o debate ou
afugentar quem lhe pergunta algo relevante.
Sinceramente, busco explicações para estes miasmas,
para esta síndrome de Estocolmo, para esta idolatria à pessoas que até pouco
tempo eram desconhecidas, que, apesar de todos os problemas pessoais e
profissionais, são eleitos os arautos da salvação do país. A pequenez e a
idiotização estão em voga, é um “nivelar-se por baixo”, aprovando e achando
lindo um líder se caracterizar por “dizer o que pensa”, desferindo palavrões,
agindo com falta de respeito, com total falta de empatia e também compactuando
com o negacionismo a qualquer preço, sobrepujando e refutando todas as regras
estabelecidas, infelizmente esta é a marca característica deste nosso tempo.
Mas onde estamos errando? O que se pode eleger como
"o mais correto", ou o mais sensato? Penso muitas coisas, e ao ler as
múltiplas “opiniões” estapafúrdias nas mídias sociais, chego ao extremo de me
pôr a perguntar: será que estamos preparados para opinar em todos os campos do
saber e do conhecimento? Até que ponto podemos mediar e criticar assuntos dos
quais não possuímos a devida competência?
Penso e logo respondo: Não! Não podemos incidir em
assuntos que não dominamos ou dos quais não se tenha o devido conhecimento e
distinção... Quero reforçar aqui, com todo o respeito: - quando você se deparar
com pautas que não são de vossa alçada, recolha-se a vossa insignificância, e,
no mínimo o que tenha a fazer é procurar saber, aprender aquela pauta ou
assunto, mas só até aí. Se quiser discutir, se capacite, estude, se gabarite
para ter a devida competência para tal.
Peço desculpas ao meu amargor cáustico, mas, diante do
desmonte da educação e da cultura, da cisma e da refutação que há sobre a
ciência e a saúde, neste tempo louco em que as frases curtas e de (d)efeito
valem muito mais que compêndios, estudos e máximas do conhecimento, onde é
modal ter um apreço exacerbado aos enganosos mitos. Assim, fico por demais
entristecido e descrente, vendo o nosso povo idolatrar inconsequentemente néscios e mentecaptos.
Mas, vamos fazer a nossa parte? Vamos pensar em como
ser pessoas melhores e resgatar o convívio salutar, onde, obviamente nem todos
devem ter a mesma opinião, mas ter em mente que conviver respeitosamente com as
nossas diferenças, considerar o conhecimento adquirido e desenvolvido, seja uma
premissa, básica e indispensável de educação e de valores para um povo
desenvolvido.
Fonte: 2022-05-12 – CARVALHO, Ramão. A afeição aos néscios e mentecaptos. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 09. São Leopoldo/RS. Edição 279, maio/2022.
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