quinta-feira, 12 de maio de 2022

mitos nescios e mentecaptos


Afeição aos néscios e mentecaptos

 O senso de convívio e respeito individual e coletivo estão esvaindo-se. Por que constato isso? Porque as pessoas estão pensando apenas por seu ponto de vista e por suas ideologias em detrimento a todo o saber estabelecido e isso é muito nocivo e prejudicial. Acabou aquela máxima que nos foi ensinada: “a minha liberdade acaba, quando começa a do meu semelhante”, ou seja, posso e tenho o direito de me expressar, de ter opinião, desde que não ofenda, não agrida ou não interfira no sentimento e nas convicções de outrem.

     Constato que estamos vivendo um tempo muito estranho, onde, a qualquer custo, se endeusa e se supervaloriza entes antes desconhecidos, estranhos, vazios de argumentos e de propostas e, mesmo tendo uma vida política e social nula ou ausente de compromissos com a população, simplesmente o seguem em massa, por ser talvez, aquele capaz de derrotar os seus antagonistas ou “diferentes”. Estes políticos ganham notoriedade por utilizar frases feitas, com pouca ou nenhuma proposta, com chavões sobre família, pátria e religião e, mesmo sem ideias claras, vão somando milhões de adeptos e seguidores.

     Quero muito entender como pessoas inteligentes e capacitadas conseguem idolatrar idiotas que vivem a vida toda na política e nunca, nunca sequer aprovaram um projeto de relevância em prol da população... repito: umzinho sequer! Quero muito entender o que passa na cabeça de quem venera os imbecilóides, estes que só falam asneiras e não conseguem manter uma linha de raciocínio, muito menos se manifestar de forma pacífica, educada e ordeira, sem ser ríspido, sem estar sempre na defensiva e utilizando a prática da ofensa para abandonar o debate ou afugentar quem lhe pergunta algo relevante.

     Sinceramente, busco explicações para estes miasmas, para esta síndrome de Estocolmo, para esta idolatria à pessoas que até pouco tempo eram desconhecidas, que, apesar de todos os problemas pessoais e profissionais, são eleitos os arautos da salvação do país. A pequenez e a idiotização estão em voga, é um “nivelar-se por baixo”, aprovando e achando lindo um líder se caracterizar por “dizer o que pensa”, desferindo palavrões, agindo com falta de respeito, com total falta de empatia e também compactuando com o negacionismo a qualquer preço, sobrepujando e refutando todas as regras estabelecidas, infelizmente esta é a marca característica deste nosso tempo.

     Mas onde estamos errando? O que se pode eleger como "o mais correto", ou o mais sensato? Penso muitas coisas, e ao ler as múltiplas “opiniões” estapafúrdias nas mídias sociais, chego ao extremo de me pôr a perguntar: será que estamos preparados para opinar em todos os campos do saber e do conhecimento? Até que ponto podemos mediar e criticar assuntos dos quais não possuímos a devida competência?

     Penso e logo respondo: Não! Não podemos incidir em assuntos que não dominamos ou dos quais não se tenha o devido conhecimento e distinção... Quero reforçar aqui, com todo o respeito: - quando você se deparar com pautas que não são de vossa alçada, recolha-se a vossa insignificância, e, no mínimo o que tenha a fazer é procurar saber, aprender aquela pauta ou assunto, mas só até aí. Se quiser discutir, se capacite, estude, se gabarite para ter a devida competência para tal.

     Peço desculpas ao meu amargor cáustico, mas, diante do desmonte da educação e da cultura, da cisma e da refutação que há sobre a ciência e a saúde, neste tempo louco em que as frases curtas e de (d)efeito valem muito mais que compêndios, estudos e máximas do conhecimento, onde é modal ter um apreço exacerbado aos enganosos mitos. Assim, fico por demais entristecido e descrente, vendo o nosso povo idolatrar inconsequentemente néscios e mentecaptos.

     Mas, vamos fazer a nossa parte? Vamos pensar em como ser pessoas melhores e resgatar o convívio salutar, onde, obviamente nem todos devem ter a mesma opinião, mas ter em mente que conviver respeitosamente com as nossas diferenças, considerar o conhecimento adquirido e desenvolvido, seja uma premissa, básica e indispensável de educação e de valores para um povo desenvolvido.

Fonte: 2022-05-12 – CARVALHO, Ramão. A afeição aos néscios e mentecaptos. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 09. São Leopoldo/RS. Edição 279, maio/2022.

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