quinta-feira, 24 de março de 2022

A alegria social do carnaval

A ALEGRIA SOCIAL DO CARNAVAL

Por Ramão Carvalho [1]

 

    Carnaval é tempo de alegria, uma data festiva que existe há milênios, conforme os autores Hiram Araújo, 2003 e Felipe Ferreira, 2005, entre tantos outros autores e trabalhos memoráveis, com obras magníficas para quem quer se aprofundar em um tema tão vasto e rico. O carnaval existe em todo o planeta, porém o do Brasil é o mais expressivo, tendo diversas características, desde os blocos brincantes até o espetáculo das escolas de samba. O samba e o carnaval são símbolos culturais do Brasil e para quem é genuinamente patriota, entender o carnaval, conhecer e reconhecer que esta ópera a céu aberto é como um patrimônio cultural é um ato de brasilidade. No carnaval há música, poesia, danças, artes plásticas e muita informação técnica, verdadeiras aulas populares e públicas, que são manifestadas com grande entusiasmo e devoção pelas comunidades e pelo povo carnavalesco.



    Quando pensamos em carnaval e em escolas de samba, de pronto, imaginamos os desfiles, apoteóticcos de Rio de Janeiro e de São Paulo, principalmente aqueles que são transmitidos pela grande mídia televisiva, porém, muito além dos desfiles, as escolas de samba possuem um grande quadro de pessoas e de intenso trabalho profissional. Com a finalidade de levar alegria e entretenimento para quem assiste aos seus desfiles, as pessoas são fundamentais para a realização destes espetáculos, considerados as maiores expressões culturais do mundo, como diz Aroldo Costa, 2007: “uma verdadeira ópera a céu aberto”, manifestação cultural reconhecida pelo Guines Book, o livro de registro de recordes.

 

    Para iniciar o ano carnavalesco, geralmente ao término dos desfiles, iniciam-se as atividades para definir o ano vindouro, daí surgem todas as atividades de reciclagem dos materiais utilizados (esta atividade cresce, devido aos parcos investimentos em cultura), a definição do enredo, a pesquisa literária e histórica que será a base para o samba, para a música, para os figurinos, ou o desenho das fantasias e das alegorias e de toda a caracterização do contingente que desfila em uma escola ou bloco carnavalesco.

 

Até aí, esta é a uma das atividades macro e que ocupa uma série considerável de profissionais e voluntários em sua execução. Para formar esta mão-de-obra muito específica, as escolas que tem sua comunidade engajada e comprometida, formam estes artistas na sua base, pois não há curso específico para profissionais do carnaval, é o caso do aprendizado dos cantores e intérpretes, dos músicos e percussionistas, dos bailarinos e dançarinos, dos aderecistas, figurinistas, e assim por diante, onde recebem ensinamentos e orientações para a finalidade de se manifestar artisticamente nos grandes espetáculos.

 

    O caso da Sociedade Cultural, Beneficente e Carnavalesca Império do Sol, que desenvolve oficinas de formação e capacitação em praticamente todas as atividades relacionadas ao carnaval. Esta Escola de Samba, localizada na cidade de São Leopoldo/RS, recebe em sua sede, denominada de quadra de ensaios, pessoas de toda a região metropolitana para socializar a alegria do carnaval, mas também capacita e desenvolve artistas para o carnaval, não só para suas apresentações, como para outras co-irmãs da região.


    As “oficinas de formação” são das mais diversas, como de bateria (percussão), decoração de alegorias e adereços, corte e costura, reciclagem de materiais, danças do carnaval, atividades relacionadas à administração, marketing, etc... a escola também recebe alunos para estágio não remunerado e também serviços e trabalhos voluntários. Vale ressaltar que para participar da escola de samba, não precisa saber sambar, isso é uma lenda! Aqui todos tem sua parcela de importância, assim como os que sambam, tem os que tocam, cantam, administram, enfim, um espaço social amplamente democrático.

 

Fontes:

ARAÚJO, Hiram. Carnaval: seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.

FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005

COSTA, Haroldo. Politica e religiões no carnaval. Irmãos Vitale, 2007.



[1] Licenciado em história (Unisinos) e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT).

CARVALHO, Ramão. Alegria social do carnaval. Matéria da contra-capa do Jornal Noticiário. São Leopoldo/RS. Edição 255, março/2020.




segunda-feira, 21 de março de 2022

Preconceito, racismo e intolerância

Preconceito, racismo e intolerância 

O preconceito, o racismo e a intolerância são três problemas psicossociais crônicos que precisamos tratar e curar! As raias destes distúrbios estão nas motivações hediondas de menosprezar, desvalorizar e no desdém dos “diferentes”, ou ainda daquele que “incomoda” a natureza do que ataca. Estas manifestações preconceituosas, racistas e intolerantes, que geralmente passam a injuriar, perseguir, desmoralizar e violentar a todos aqueles que não correspondem com os padrões idealizados do discriminador. Atitudes e comportamentos desonrosos que estão sendo a cada dia mais, visualizados pela grande mídia.

O preconceito, como revela o termo, é o sentimento pré conceituado, sem reflexão ou conhecimento, dotado de ignorância e hostilidade, que é assumido em consequência da generalização apressada do desconhecido, seja pela pequena experiência pessoal ou imposta pelo meio. Esta ação de juízo possui diversas origens e que talvez, tenha na misoginia, o primeiro dos preconceitos, seguidos do preconceito de classe, do econômico, de posição social, na cor de pele, na formação étnica, etc, etc…

O historiador Leandro Karnal nos conta que, quando indagado por uma inglesa, sobre o problema de cruzamento de raças no Brasil, ele respondeu a ela que formação da Inglaterra e do povo inglês também se originou de cruzamentos de celtas, bretões, romanos, anglo-saxões, vikings, normandos, ou seja, também se trata de um povo miscigenado, assim como a maioria das nações europeias, onde é equivocada a noção de pureza de raças. O mesmo Leandro Karnal foi brilhante em identificar que o preconceito contra gays (LGBTQIA+), onde nos diz que: "[…] do ponto de vista psicanalítico, todo ataque homofóbico é sempre o choque entre dois gays, o que vive a sua sexualidade e o que tem vergonha e medo da sua sexualidade, que é aquele que ataca []".

O racismo é dos problemas citados, o mais nocivo, o mais severo, o mais danoso, um sentimento inexplicável, onde a exclusão, a desigualdade social e a violência, desencadeiam atitudes bizarras e inconcebíveis. Não há argumentação, explicação ou fundamento para estas condutas! O professor Kabenguele Munanga, que luta contra o racismo nos diz que: “[…] todos os racismos são abomináveis e cada um faz as suas vítimas do seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, mas ele tem as suas peculiaridades [...]”. O professor Sílvio de Almeida (2019) caracteriza o racismo no Brasil como sendo estrutural, pois criou um sistema para segregar e manter negros e negras na exclusão, na subalternidade e longe do poder. Abdias do Nascimento e diversos intelectuais discorrem da dificuldade de reinserção na sociedade desde o 1888, onde ações racistas, segregadoras e discriminatórias, desde as práticas mais simples presentes naquelas expressões non gratas, até a violência e a morte, revelando sentimentos cristalizados e reproduzidos por gerações nas ações e nas atitudes tóxicas dos racistas.

A intolerância é outra ação avassaladora dos sentidos, pois é e foi construída e constituída há muitos e muitos anos, por processos de reprodução do ódio, onde os indivíduos, dotados de sua “supremacia”, declaram ser e ter a suas características, cultura, nação e religião, as melhores que existem, as mais “evoluídas”, a natureza linguista a mais rica, a sua religião como a única e a legítima representante de Deus, enquanto que as demais são inúteis, hereges, pagãs, atrasadas… assim a intolerância e o preconceito seguem a pleno, sendo repetidas de geração em geração, amplificando o menosprezo xenófobo e intolerante.

Pode-se afirmar que no Brasil, ser preconceituoso, intolerante e racista é um atestado de burrice! Afirmo isso porque no país mais miscigenado do mundo, não há nenhuma pureza racial, não há autenticidade, puridade ou purismo de cor, de credo, de linguagem, de estilos, de expressão e de cultura. Não somos 100% nada! Precisamos tratar esta doença da alma, para mitigar e curar este mal psicológico e comportamental, o qual não possui nenhuma explicação plausível para a sua existência.

Compreendo que o preconceito a intolerância e o racismo seguem juntos sua caminhada nociva e mortal. Sabedores destes defeitos psíquicos, devemos criar dispositivos para livrar-se destes miasmas e, livres destas imbecilidades que nos dividem, que violenta a existência dos semelhantes, atos que não agregam valor, que atrapalham o desenvolvimento social e cultural, assim, livres destas tolices inexplicáveis, vamos progredir imensamente. Sejamos conscientes de que somos uma nação colorida em todos os sentidos e que viveremos em um país mais justo, mais igualitário e mais evoluído quando houver esta compreensão.

Ramão Carvalho.

CARVALHO, Ramão. Preconceito, racismo e intolerância. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 272, outubro/2021.

sábado, 12 de março de 2022

A brasilidade sob uma banda

 

🌿 A brasilidade sob uma banda! 🇧🇷
Falar de brasilidade e das peculiaridades do povo brasileiro é um desafio complexo devido à dificuldade de dar conta do todo. Desde Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e outros tantos intelectuais, que buscaram interpretar o Brasil brasileiro e compreender as configurações da identidade nacional. As composições formativas do nosso povo são as mais complexas possíveis, e me arrisco a dizer que somos o povo mais miscigenado do mundo! Explico: somos fruto de uma mistura de gentes de diversas partes do planeta e a nossa ancestralidade está calcada no hibridismo da mistura de raças, onde todos os brasileiros são mestiços.
Para muito antes da colonização, período histórico, conhecido erroneamente como “descobrimento”, e antes da chegada dos portugueses em 1500, viviam aqui milhares de nações indígenas, com suas línguas, crenças e culturas, numa estimativa de que mais de 2.500.000 indígenas habitavam estas terras no século XVI, que dizimados, chegaram em 1998, num total de 302.000 indivíduos. Depois vieram os portugueses, com sua língua, crença, cultura e a belicosidade da dominação a qualquer custo. Com as tentativas frustrantes de subjugar os indígenas ao trabalho escravo, foram em diversos locais da África para “trazer” os negros, que vieram para cá a contragosto, trazendo suas línguas, crenças e culturas. Todos estes encontros e choques étnicos, confrontando-se e combinando-se as línguas, as crenças e as culturas muito diferentes, o que gestou as características do nosso povo.
Nestes encontros culturais, o que se sabe é que os ancestrais indígenas já praticavam diversos ritos de curas, possuindo o conhecimento das propriedades das plantas, dos vegetais, das folhas, das raízes e das ervas, no uso do fumo e da defumação para afastar espíritos maléficos e também as enfermidades. Sabe-se que os ancestrais africanos, quando trazidos à força para o Brasil, durante quase todo o período da colonização portuguesa, trouxeram na memória, seus costumes e crenças voltados para as forças primordiais da natureza, manifestados nos inkices, voduns e orixás, inaugurando com as matrizes da raça brasileira, a miscigenação de povos e o convívio das crenças e das culturas.
Sabe-se que os escravizados indígenas ou africanos, eram catequizados ou convertidos ao catolicismo cristão. Os africanos, por exemplo, eram “batizados” com nome católico e deveriam dar a volta na árvore do esquecimento e deixar sua família, a sua cultura e seus dogmas, onde eram proibidos por seus senhores ‘brancos-católicos’ de executar seus rituais religiosos. Assim, porém, os astutos africanos sabiamente, num ato de resistência, associaram as semelhanças físicas e equivalências das características dos sagrados deuses negros com os santos católicos.
Este movimento associativo de santos e deuses de diversas origens, inaugurou o sincretismo brasileiro e deu as bases para a ‘materialização’ de uma religião genuinamente brasileira que, mais tarde se chamou de Umbanda (todos sob uma só banda), que agregou também o espiritismo kardecista, os santos cristãos e católicos, os caboclos miscigenados, as nações indígenas, os imigrantes, os orientais, os ciganos, os pretos velhos africanos e a energia dos Orixás. Assim nascia uma religião amálgama, legítima e verdadeiramente nacional, agregando em seus ritos e altares uma mescla de diversas divindades, das mais variadas características, dos mais diferentes povos, numa pluralidade ímpar e representativa, ou seja, sendo uma demonstração de uma brasilidade tolerante e fraterna, sob uma só banda!

Fontes
IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000. https://brasil500anos.ibge.gov.br/.../os-numeros-da...
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Global Editora Ltda, 2015.

CARVALHO, Ramão. A brasilidade sob uma banda. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 275, janeiro/2022.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

O multiculturalismo que dá tempero ao Brasil brasileiro.

 


Quadro "Operários" de Tarsila do Amaral. 1933
Fonte: https://www.culturagenial.com/quadro-operarios-de-tarsila-do-amaral/ 

O tempero de um Brasil brasileiro

    O multiculturalismo é a convivência de diferentes culturas em um mesmo local ou ambiente. Este fenômeno define muito o nosso país, devido aos mais diversos grupos étnicos e culturais que formaram e formataram as características do Brasil. Estas culturas estão interligadas entre si, querendo ou não, rejeitando ou não, há muitos indícios e podemos constatar este sortimento, esta pluralidade no nosso dia a dia. Esta multiplicidade de culturas são heranças de nossos ancestrais indígenas, europeus e africanos num primeiro momento, depois, houve uma profusão de imigrantes que para cá vieram, trazendo suas
experiências, culturas, costumes e saberes.

    Ao passear pelo vasto Brasil, termo que significa ‘da cor da brasa’, local onde há o hábito de se banhar com frequência, costume ancestral tupi, guarani... indígena, o banho que era de rio, no Caay, Ijuí, Jacuí ou no Itapuí (o nome original do Rio dos Sinos), hoje impróprio para esta prática, devido a severa poluição da vida urbana. Banhando-se nas águas salobras e salgadas de Tramandaí, Imbé, Camboriú, Guaropaba, Guarujá, Copacabana, Ipanema, seja por toda a Guanabara, de Piratininga, Caju, Niterói até a Tijuca, de Itabapoana até Paraty, por toda a extensão do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, ou aindado chavão; do Oiapoque ao Chuí, percebemos em todos eles, vocábulos indígenas.

    Poderíamos também, ir pelos caminhos dos Quilombos, à Gamboa, Mangueira, Palmares, ao Pelourinho, o Cais do Valongo, são porém, topônimos escassos, mais escassos ainda se tratando do Estado do Rio Grande do Sul, onde o nome de ruas, rios e lugares, possui 99% derivados de culturas indígenas e lusitanas, relegando a raríssimas evidências aos nomes de localizações ligados aos antepassados e à cultura africana. Há de se ressaltar que os nomes de lugares identificando a herança portuguesa e europeia é massiva, o que denota a supremacia e o domínio desta cultura sobre as demais.
Ao seguir nosso passeio pelo Brasil multicultural, vamos nos deparar com cheiros e sabores das mais variadas e diversas iguarias, como a pipoca, o guaraná, a moqueca, a paçoca, a mandioca (para alguns o aipim), o chocolate, o milho, o mingau, o churrasco, o chimarrão e tantas outras, tipicamente indígenas. Na culinária africana, o vatapá, o acarajé, o cuscuz, o amalá, o abará, a canjica, a feijoada, o mungunzá e tantas outras. Nos sabores europeus vieram o quindim, a cuca, o chucrute, a salsicha, os queijos, as massas... etc, etc, etc.

    Na música popular brasileira – MPB – há o samba, a bossa-nova, o axé, o maracatu, o sertanejo (indivíduo miscigenado, segundo Darcy Ribeiro, conhecido como caipira, um outro termo indígena), os ritmos caboclos do frevo, o forró, o baião, o xote o xaxado, o maxixe, o lundu, etc, etc. As vestimentas também possuem influências culturais, desde a “pouca roupa” até aos suntuosos trajes, passando pelo abadá, o torço, o turbante, a kafka, etc. Ao ir à praia, veste-se os termos de maioria africanos, como o bikini, a tanga, a sunga a canga.

    Yeda Pessoa de Castro nos conta da influência das línguas africanas no português brasileiro, em que os termos estão completamente integrados ao sistema linguístico do país, onde muitas das palavras chegam a substituir, como é o caso de giba por corcunda, bilha por moringa, trapilho por molambo, insultar por xingar, dormitar por cochilar, óleo de palma por dendê, nádegas por bunda, vespa por marimbondo, sinete por carimbo, etc. Também merece destaque a palavra caçula, por ser conhecida e usada por todos os brasileiros para dizer “filho mais jovem”, que antes da vinda dos africanos, o termo utilizado até então era benjamin e só era empregado para o filho menino mais moço, não havendo tal termo utilizado para as meninas. Acrescentam-se os termos “o dengo do/a caçula mimado/a”.

    Notem que nossa resumida viagem pelos vocábulos e expressões estão calcados na multiculturalidade e notem também que ela nos constitui, e todos nós, brasílicos miscigenados fazemos parte deste “todo cultural”, pois somos frutos de misturas, da complexa e infindável combinação de culturas, gestando este que é meu, este é teu e este que é nosso, tempero verde, amarelo e azul de um Brasil brasileiro.

Fontes mencionadas

CASTRO, Yeda Pessoa de. A influência das línguas africanas no português brasileiro. Secretaria Municipal de Educação- Prefeitura da Cidade de Salvador, p. 3-12, 2005.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

CARVALHO, Ramão. O tempero de um Brasil brasileiro. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Fevereiro/2022.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Os injustiçados

 


Coloquei o nome da imagem de "os ex-presidiários", os injustiçados, presos, humilhados, mas que jamais desistiram de lutar e seguir acreditando na humanidade... muito cuidado ao acusar e condenar alguém sem provas ou o pior, encarcerar um ser para privá-lo de suas convicções...

SINCERAMENTE o que você vê nesta imagem?

Eu vejo pessoas que, por suas convicções, pelo amor ao próximo, tornaram-se heróis no seu tempo! E VOCÊ? O QUE VÊ?

OS EX-PRESIDIÁRIOS, INJUSTIÇADOS QUE ADMIRO DEMAIS:

Te lembras de mais algum vulto histórico que não está mencionado? 

COMPLETA A LISTA AÍ, POR FAVOR!




quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A CRISE NACIONAL E O CARNAVAL.




Este texto foi desenvolvido em janeiro de 2017 para a Coluna do Site de Cultura Popular, o Setor1, mas verifico (com muita tristeza), que ele ainda é muito atual, por isso resolvi reeditá-lo.

Venho através desta coluna, me manifestar sobre o que tenho lido, principalmente nas famigeradas redes sociais, sobre as opiniões de "prós e contras" ao segmento cultural mais integra e congrega artistas no solo brasileiro; que é chamado de Carnaval, segundo Joãozinho Trinta, “a maior manifestação artística a céu aberto do mundo”.

Não vou mencionar a vasta e longínqua história que tem esta manifestação a nível mundial, cito Felipe Ferreira, 2004 e Hiran Araújo 1991, que podem dar uma bom embasamento e orientações desta magnífica manifestação artística. Um verdadeiro fenômeno artístico e cultural, e também social, histórico e antropológico, segundo Eneida, 1987, Rosa Magalhães, 1999 e tantos outros autores... Uma extraordinária fonte de intelectualidade cultural que no Brasil se desenvolveu e criou características próprias graças à miscigenada população (principalmente da união étnica de brancos, negros e indígenas) e que da profusão de seus costumes gestou o ritmo do samba e também as origens do ritmo que embala o carnaval brasileiro. Para estes aspectos, repito, há vasta bibliografia e também é verificado no notório e volumoso trabalho das Escolas de Samba.

Podemos perceber que em nossa sociedade há os que gostam e os que não gostam do carnaval, até aí tudo bem, visto que somos um país plural, o problema grave que verifico neste sentido, se dá ao fato de que, aquelas que não gostam ou não conhecem, ou ainda, que não quererem conhecer a realidade e as especificidades desta complexa manifestação cultural, acabam desferindo comentários desagradáveis, contendo ideias de cunho preconceituoso, culminando com descrédito, atestando o total desconhecimento da realidade que envolve o carnaval como um todo.

O fato é que tenho percebido que alguns, do grupo, dos que não gostam do carnaval, estão aproveitando a atual situação, para malhar, tirando suas rasas considerações acerca de um assunto que abrange uma parcela considerável da população do Brasil que é pobre, de baixa renda ou ainda paupérrima... só por isso! Falamos de carnavalescos, que vivem à margem da sociedade, aquela parcela discriminada, que, na maioria das vezes anda de ônibus, que faz a faxina na sua casa, que ‘bate o ponto’ em alguma fábrica, que paga suas contas em dia, e que encontra nos ensaios, desfiles, shows, apresentações e atividades ligadas ao carnaval, um alento, um divertimento, uma ocupação de ócio criativo, suprindo a falta ou a impossibilidade de acesso aos meios caros e onerosos, e, muitas vezes discriminatórios da arte e da cultura. Há de se ter um considerável poder aquisitivo e econômico para acessar a dança, o teatro, a música, a poesia, a literatura... enfim;

Vale esclarecer para todos que desconhecem as teias de envolvimentos e da possibilidade de suprir um “sem fim” de necessidades da população mais pobre, seja cultural, seja econômica, seja de recreação ou de ocupação a nível de prevenção social – pensando nas áreas de vulnerabilidade – local em que muitas crianças, jovens, adultos e idosos, encontram nestes espaços das escolas de samba, exatamente ali, uma gama de trabalhos sociais e culturais sempre disponíveis. [Oxalá permita que sempre estejam!]

Há quem diga, pejorativamente que é uma cultura de negros, de pobres e de favelados, que é uma esculhambação, uma imundície da sociedade, onde perambulam meretrizes, drogados, bêbados e todo o tipo de infames... Aos que pensam desta forma, não vou entrar no mérito, e digo que é sim um segmento que agrega pobres, favelados, mas também os ricos, os graduados, assim como os analfabetos, os brancos, os negros, os amarelos e toda a palheta de cores e todos os credos, TODOS! Sim, todos, pois é a manifestação mais democrática do planeta!!!! Também digo que este tipo de desqualificação da "cultura do outro" é um fenômeno que interpreto como 'ecos de uma sociedade patriarcal e preconceituosa’. Mas, deixando o preconceito de lado e seguindo uma discussão mais técnica e embasada...

Compreendo que vivemos uma fase muito delicada da vida econômica do nosso país, mas isso se deve às lideranças politicas, das pessoas às quais votamos para, por nós tomar decisões e estas, não estão desempenhando a contendo as suas atribuições... uma vez que o dinheiro dos impostos e das riquezas que geramos (que não são poucas), não estão sendo aplicados de fato nos serviços aos quais foram planejados. Daí surge a “receita burra”: Aumentar impostos! Cortar gastos! Desta forma, com os ditos “cortes de verbas”, os serviços que mais sofrem com este fenômeno é o social, principalmente os ramos da cultura e do lazer, garantidos por Lei Federal, como podemos verificar o que rege a Constituição:

 Capítulo III - Da Educação, da Cultura e do Desporto, na Seção II - Da Cultura:
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afrobrasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
§ 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.
§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à:
I - defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II - produção, promoção e difusão de bens culturais;
 III - formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões;
IV - democratização do acesso aos bens de cultura;
V - valorização da diversidade étnica e regional.

A maioria dos comentários que leio, verifico algumas pessoas dizendo que os prefeitos devem pegar o dinheiro do carnaval e investir na saúde, para tapar os buracos das ruas, investir em segurança... Daí vem a grande questão: na minha cidade, São Leopoldo-RS, por exemplo, no ano passado não teve carnaval, e, daí vem a pergunta: "como andam os buracos da cidade e a situação da saúde?" Resposta: “Na mesma ou pior...”. Aliás, a verba de 2016 que serviria de fomento ao carnaval de São Leopoldo foi transferida, segundo a presidente da Associação Carnavalesca, para reforma da Biblioteca e do Teatro Municipal... “e cadê a obra?” “...e o pior: “cadê o dinheiro?”...

Seguindo o mesmo preceito da Lei Federal na Constituição, que garante o acesso de todos os brasileiros à Cultura, para o Carnaval de São Leopoldo, que nos serve de exemplo acima, também há uma Lei municipal mais específica que ampara e garante os desfiles carnavalescos e que não foi cumprida pelo prefeito da gestão 2013-2016:

Art. 1º Ficam alterados os artigos 1º e 3º da Lei Municipal nº 5.493, A/2004, passando a vigorarem com a seguinte redação:
"Art. 1º Fica criado o carnaval de rua anualmente no município de São Leopoldo com todas as suas manifestações tradicionais, passa a ser considerado evento oficial do município, com administração, execução e comercialização pelo Poder Público, através da Secretaria Municipal da Cultura e da Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo.
 "Art. 3º Os desfiles de agremiações carnavalescas serão realizados em logradouros públicos deste município, com as condições de infraestrutura e orçamento com recursos alocados e colocados à disposição pelo Poder Executivo através de dotação orçamentária da Secretaria Municipal da Cultura.
§ 1º  Os recursos deverão ser repassados à Associação das Entidades Recreativas Culturais e Carnavalescas de São Leopoldo em 03 (três) parcelas até a data de realização do carnaval, devendo o investimento do carnaval não ser inferior ao do ano anterior."

LEI MUNICIPAL Nº 5.493, de 08 de julho de 2004 - CÂMARA DE VEREADORES DE SÃO LEPOLDO. Emenda Lei municipal 6458/07 da Câmara de Vereadores de São Leopoldo.

Para os que só criticam; somos uma significativa parcela da população, reconhecemos sim que os serviços básicos sociais devam ser garantidos, e é para isso que se trabalha, é por isso que pagamos os impostos, que seguimos as Leis e os Regimentos da Nação, do Estado e do Município: para ter nossos direitos garantidos.

A reflexão que teremos que fazer é de que não é a verba, ou o incentivo, ou o fomento (como queiram chamar) que é a base do carnaval... que esta “merreca” não vai salvar o salário dos servidores, do funcionalismo em geral, das obras públicas, da saúde, de um hospital novo, dos buracos das ruas e avenidas, da criminalidade, do desemprego, da fome, da falta de educação, o aumento de salários dos nossos representantes políticos...

Esta economia do carnaval, vai fomentar e movimenta a cadeia produtiva local girar, vai garantir empregos temporários, vai envolver e disponibilizar para aqueles que vivem nos guetos, nas vilas, favelas, comunidades carentes; acesso aos diversos segmentos culturais que o carnaval engloba, pois tecnicamente há nestes espaços muita literatura, por exemplo, nas pesquisas para desenvolver os enredos, na música, presente no samba, nas aulas de violão, de cavaco, nas aulas de canto, na percussão (ritmos percussivos da bateria), nas artes plásticas presentes nos figurinos, nas esculturas, nas decorações, no visagismo... etc..., há nestes espaços, locais de convívio, de pertencimento às diversas manifestações e atividades culturais que envolvem o universo de uma Escola de Samba, acho triste ver aqueles que só criticam, pessoas ditas inteligentes, que cometem a gafe de falar bobagens por não saber e não conhecer (muito menos reconhecer) que o samba e o carnaval representam o Brasil para o mundo todo.

Dados atualizados: A indústria do carnaval, o nome dado ao conjunto de atividade para produção de fantasias, adereços, e materiais para os carros alegóricos, movimentou cerca de 6,25 bilhões de reais e gerou mais de 20 mil empregos em 2018[i]. Só as escolas de samba do grupo especial gastam cerca de 100 milhões de reais em matéria-prima — sem contar salários e serviços — para pôr seu enredo na avenida.

Para finalizar: o dinheiro do carnaval, não vai resolver nenhum problema financeiro dos outros serviços que o governo estadual e federal e também alguns dos prefeitos (por incompetência) não pagaram... sempre vai faltar! #ficaadica.


FONTES DE CONSULTA
ARAÚJO, Hiram. Carnaval: seis milênios de história. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.
BORGES, Maria Eliza Linhares. História e fotografia. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
BURKE, Peter. Testemunha ocular: imagem e história. Bauru: EDUSC, 2004.
CAPELATO, M. Helena. Imprensa na República: uma instituição pública e privada. IN: SILVA, Fernando T. da et al. (orgs). República, Liberalismo, Cidadania. Piracicaba: UNIMEP, 2003, p. 139 – 150.
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
COSTA, Haroldo. Política e religiões no carnaval. São Paulo: Irmãos Vitale, 2007.
DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
DO BRASIL, Constituição Federal. Constituição federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1988.
EGGERS, José Carlos. FIALKOW, Miriam Zeltzer. RAMOS, Eloisa H. Capovilla da Luz. Sociedade Orpheu: da História de um nome a identidade de um clube. São Leopoldo. Edição Sociedade Orpheu.1996.
FERREIRA, Athos Damasceno. O Carnaval pôrto-alegrense no século XIX. Porto Alegre: Livraria Globo, 1970.
FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
KRAWCZYK, Flávio; GERMANO, Iris; POSSAMAI, Zita. Carnavais de Porto Alegre. Porto Alegre: Prefeitura de Porto Alegre. Secretaria Municial de Cultura, 1992.
LAZZARI, Alexandre. Coisas para o povo não fazer: carnaval em Porto Alegre (1870-1915). Edunicamp: Campinas, 2001.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: UNICAMP, 1990.
LEAL, Caroline Pereira. As Mulheres no Reinado de Momo: lugares e condições femininas no carnaval de Porto Alegre (1869-1885). Programa de Pós-graduação em História. PUCRS. Porto Alegre, 2008.
MOEHLECKE, Germano Oscar São Leopoldo Era Assim - o passado pela imagem. Edição do Autor. 1982.
MORAES, Eneida de. Historia do carnaval carioca. Rio de Janeiro: Record,1987.
PINHEIRO, Marlene M. Soares. A travessia do avesso: sob o signo do carnaval. São Paulo: Annablume, 1996.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5, nº 10, 1992.
SOIHET, Rachel. A Subversão pelo riso: estudos sobre o carnaval carioca da belle-époque ao tempo de Vargas. Rio de Janeiro: FGV, 1988.
VON SIMSON, Olga R. de Moraes. Carnaval em Branco e Negro, Carnaval Popular Paulistano (1914-1988). Campinas. Ed. da Unicamp, EDUSP e Imprensa Oficial, 2007.



[i]UOL, ed. (9 de fevereiro de 2018). «Carnaval deve movimentar R$ 6 bilhões e gerar 20 mil empregos». Consultado em 11 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Estamos enfraquecidos




Estamos enfraquecidos... e de quem é a culpa? É NOSSA!!!

Sim! Uma pesada e doída exclamação! A culpa é sim; toda nossa! Relfexões!

Tenho sido um tanto ácido ultimamente em meus textos, sei disso... mas é tudo o que tenho percebido e sentido nestes tempos difíceis... Logo tenho que fazer uma pequena defesa antes de prosseguir... As coisas estão fora de controle mesmo, e verificamos isso dia a dia, ano a ano, nossas dificuldades tem aumentado de forma exponencial... e potencializa os problemas, e aumenta o drama social o qual estamos vivemos...

Mas porque tudo isso acontece? Acredito que isso acontece e continua acontecendo, pois vem de encontro com a maldição deste país que tem na corrupção uma herança detestável, vinda desde os primórdios da colonização, de um povo que na imensa maioria gosta de “se aproveitar” de tudo e de todos... enfim, de uma série de problemas sociais ligados aos vícios e do descaso que temos como a vida pública e com a saúde social de nosso povo. Há também, associado a tudo isso aquela síndrome de que ‘tudo o que é de brasileiro não presta!’

Estamos cada vez mais discriminados, mais suscetíveis às humilhações e ao descaso, pois deixamos que um sistema intolerante deprecie a nossa cultura popular por exemplo. Um sistema que tem aumentado a modinha da “padronização dos costumes”, que busca um ‘endireitamento’ utópico e a “fórceps”, com uma receita calcada em política+religião, com um vertiginoso crescimento de lideranças religiosas e fundamentalistas, e que, enxergam o mundo segundo os seus dogmas. Um sistema que a cada dia que passa, supervaloriza e importa tudo o “que vem de fora”, e tudo o que é “dos states”, ou seja lá de onde, desde que seja melhor, mais “da hora” ...menosprezando o que é daqui, o que realmente é a genuína cultura brasileira... uma tristeza!

Não quero entrar numa paranoia, de que há uma conspiração arquitetada, mas fico pensando... será que há um plano maior sendo direcionado, que ao longo dos anos e décadas vem deturpando os costumes dos que não são “o oficial da nação” e dividindo a nossa gente, tal qual fizeram aqueles homens com os africanos nos navios negreiros, onde os grupos étnicos de mesma língua e de parentesco eram divididos para que não se rebelassem, para evitar que se unissem contra seus algozes escravagistas...

Hoje em dia, permitam-me fazer uma metáfora... falamos muito em matriz e raiz africana, por exemplo... ao se referir, muitas vezes, orgulhosos da base ou das origens de nossos costumes. Verifico que esta matriz ou raiz gerou um caule robusto, se misturou no malungo, resistiu e cresceu frondoso com a força e a fé e, porque não dizer; com a fibra e a coragem de nossos antepassados? Acontece que vieram as tais ‘modernidades’, e o troco foi se ramificando em diversos galhos... estes galhos foram perdendo algumas de suas propriedades, se modificaram e incorporaram outros costumes, outros saberes... e estes galhos ficaram cada vez mais longe do tronco e mais longe da raiz...

A este frondoso e espesso tronco, humildemente nossos velhos mantiveram, muitas vezes abaixo de muita chibatada, todo o arcabouço cultural, guardando detalhes tradicionais, a base da complexa força dos Orixás, dos movimentos da dança-ritmo-luta da capoeira, dos muitos sons, diversos toques, dos temperos, dos segredos, das folas e das ervas, da catimba, das mandingas, de sua gênese, de lendas, de mitos que explicam o mundo e de tudo mais... conviviam neste cinturão a religião, a capoeira, a culinária, o semba, o jongo, as vestes e noções do vestuário, de costumes e todos os sabores, os cheiros e os ritmos dos mais diversos, e no tronco da tradição, todos eram guardados e, mesmo sendo “pluri”, eram considerados como “uno”, pois estavam sob a mesma égide, ou ainda, sob o mesmo céu-òrun, guardados sob o alá sagrado da proteção divina.

Passado o tempo, as novas gerações experimentaram novas concepções, o homem branco europeu e o sistema estabelecido ofereciam coisas novas, ritmos novos, havia a possibilidade e a aproximação de novos saberes, e, a apropriação de novas culturas, foram transformando o que era tradicional. Assim, sem perceber que deglutiam o ódio e a intolerância, nossos irmãos foram se alimentando destes “novos costumes”; esquecendo, ou mesclando o passado ancestral...

Desta forma, metaforicamente foram se separando os galhos do tradicional tronco. Cada galho cresceu em separado, cada qual com uma daquelas propriedades, que antes eram o todo, o todo que resistia, que era fortalecido pela sabedoria dos velhos antepassados... Cada galho foi se auto afirmando, se desenvolvendo em uma nova e independente característica cultural... e se separaram os fortes laços da herança africana...

Obviamente que devemos levar em consideração a influência das fortes proibições do sistema estabelecido a tudo o que diferente do padrão europeu... Havia uma repulsa a tudo que lembrava aos costumes africanos e africanistas (a música, a dança, o vestuário, a religião...). A policia proibia o samba, o afoxé, a capoeira, a crença e a religião, aliás, prohibia (grafia da época) tudo que fosse ligado aos costumes do povo negro africano, pois entendiam como abominável aos bons costumes europeus e a tez ariana, qualquer manifestação ligada aos negros, pardos e índios da terra... (para se aprofundar mais no assunto da “teoria racial no Brasil” deixo como sugestão a leitura de Nina Rodrigues, João Batista de Lacerda, Silvio Romero e seus pares da época.

A discriminação era de toda a ordem, se adicionavam termos pejorativos. Depreciativos e até debochados para toda e qualquer manifestação, e o pior, a nossa própria gente da periferia, agregava e repetia tais pensamentos e formas de agir, dizendo muitas vezes, por exemplo que “samba era coisa de malandro bêbado”. A capoeira; “coisa de nego briguento”... Houveram muitos casos, principalmente na Bahia, do próprio povo negro e de terreiro, considerar os capoeiras como “bandidos”, por seus irmãos de cor e, muitas vezes, pelas mães de santo, que, por exemplo, abominavam e proibiam os filhos de jogar, pois chamaria a atenção da policia.

Algum desavisado pode dizer: “isso tudo ficou no passado”... NÃO! Não ficou no passado! ...está presente hoje em dia. Posso afirmar, pois noutro dia ouvi de uma mãe de santo da atualidade dizer: “[...]...ah! mas eu detesto carnaval... quem precisa de carnaval...? [...]este povo que só quer festa, que só faz badernas...[...]” uma tristeza ouvir isso... sem contar que a referida mãe de santo, branca, nem ao menos deve saber ou dar importância para estas ligações tradicionais e históricas com o tronco africanista, e o pior, proíbe ou dificulta o acesso de seus agregados de religião à se envolver com o carnaval... (!).

Desta forma, posso afirmar que vamos nos enfraquecendo, e não tendo lideranças fortes e unidas, vamos agindo e “apanhando”, isolados, de um lado os capoeiras, do outro os carnavalescos, de um outro os religiosos de Umbanda, Quimbanda, Candomblé e Nação... e assim por diante, cada qual no seu nicho, sofrendo discriminações, baixas e todo o tipo de infortúnios diante de uma sociedade cada vez mais está inquirindo a “padronização”... Nosso  povo está apático, não quer mais se reunir, está enclausurado, hibernando suas individualidades e caprichos, fechados ao coletivo e que não se deu por conta que a cada dia perde um pouco de sua força, de sua identidade como povo.

Ramão Carvalho
Janeiro/2017

sábado, 24 de junho de 2017

Meus Motivos e Motivadores

Meus Motivos e Motivadores

Sempre tive muita coragem, principalmente para começar algo, para por em prática alguma ideia, alguma atividade nova... e sempre foi assim, desde a época da escola, nas brincadeiras de infância, no trabalho, na universidade, nas questões culturais, sempre fui muito criativo, sempre tive esta energia para começar alguma coisa. Acredito que esta energia ainda me inspira, e acredito também que esta energia se chama coragem... Sim coragem para vencer os desafios, vencer as dificuldades e quebrar barreiras e paradigmas para se chegar a fazer e realizar algo...

Me lanço neste novo desafio, por sentir que posso colaborar, e muito, com nossa cidade... Tudo começou após externas algumas indignações por parte do descaso, do sucateamento de ruas e serviços como o hospital e também com o fechamento da pasta da cultura... meus incentivadores, parentes e amigos, me incentivaram a ingressar em um desafio: representar o povo de São Leopoldo e de levar todas as minhas ideias ao Legislativo Municipal. Pronto: estava lançado o desafio!

A inspiração na família Tenho na imagem de minha mãe a inspiração e a ela devo a formação de maus valores o do meu caráter... ela sempre presou por ser correto, honesto, ser uma pessoa integra e “do bem”. Meus irmãos e irmãs beberam também desta fonte, e sempre me mostraram que trabalhar é batalhar e lutar pelo que se quer... Aliado a tudo isso, vejo e sinto em minha família religiosa muitas destas lições e questões, de amar ao próximo, de fazer caridade, se preocupar com o bem estar do outro, de tolerância, de convívio, de proteção à natureza... Enfim, sou norteado, guiado e protegido por seres do bem!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Ultimatum



Ultimátum de um desabafo moderno.
[inspirado no célebre texto de Álvaro de Campos]

Fora a toda a velha fórmula política e social que está aí;
Fora os donos das terras brasilis, desde as naus às hereditárias capitanias;
Fora o coronelismo, a ditadura, mãos, punhos e testas de ferro da nação;
Fora a todo o mal educado, de todas as esferas, de todas os logradouros;
Fora ao mal caráter, mentiroso e corrupto representante do povo;
Fora tu, falsa celebridade, vazia de ideias, vazia de conhecimento;
Fora tu socialista a querer padronizar os ganhos, as posses e não querer perder as suas;
Fora tu, devorador capitalista que incentiva a fome e o lucro a qualquer custo;
Fora as grandes fortunas, diante de tanta pobreza...
Fora tu, poluidor das aguas, do solo e do ar...
Fora também a toda a forma padronizada de pensar;
Fora, fora, fora a toda ideia depreciativa da cultura alheia;
Fora todo o preconceito! Fora todo o resquício da inglória escravidão;
Fora a ânsia que alguns seres têm do próximo;
Fora a todo o fanatismo, religioso, político, ideológico, fora a todos...
Fora tu, falso profeta, que se utiliza da carência do povo para fazer valer de seus caprichos, de suas vontades, de suas mais obscuras mentiras;
Dou um “ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!”
Se não querem sair ou ir para fora, que tomem um banho de vergonha;
Limpem-se da sem-vergonhice, da ignorância, da falácia; da mentira...
Onde está a filosofia crítica? Onde está a arte? Onde está a educação deste nosso povo?
A nossa gente não conhece sua história, não entende a formação de sua identidade, não se pertence como nação, não honra e não louva sua pátria, não honra os seus;
Somos um povo que tem vergonha de seus antepassados... nega sua cultura...
Por isso grito, falo, esbravejo, retumbo em alto e em bom tom um sonoro:
FORA A TODOS OS IGNORANTES!!!
Reforço! Fora à ignorância, fora a falta de conhecimento, fora ao despreparo! FORA!!!

Rogo por um milagre, seja de qualquer divindade, de qualquer credo, ou de todos Eles juntos; pois com as bases culturais, políticas de governo, as leis torpes e contraditórias, e também a todo o tipo de desserviço que aí estão, não chegaremos nunca, ao status de uma nação desenvolvida, organizada, limpa e educada... L