AFINAL, QUAIS SÃO OS NOSSOS SÍMBOLOS?

Motivado e instigado pelas movimentações em
torno do bicentenário da imigração alemã em São Leopoldo, ponho-me a pensar: “-Seriam os imigrantes germânicos os
fundadores da nossa cidade?” E por que trago esta indagação? Pois percebo
que é do senso comum, as manifestações das mais variadas fontes, tratar e
referir-se ao aniversário desta urbe no dia vinte e cinco de julho.
Penso que há um grande equívoco e que devemos
aproveitar o ensejo para reparar, e, principalmente pensar em uma solução ao
tempo que estamos vivenciando. Penso também que podemos aproveitar todo este
aparato festivo preparatório em se tratando das comemorações que servirão para
lembrar da chegada desta importante parcela étnica no Brasil e em especial na
vinda para a nossa cidade. A seguir, traço algumas ilustrações que vão dar
embasamento ao que transcorro aqui, como por exemplo, para além do senso comum
já citado, há as representações formalizadas que trazem significados representativos
importantes.
Para uma maior compreensão desta crítica
opinativa, recorro a Sigmund Freud (1913) em sua análise representativa para a
sociedade através dos totens e mitos e trago aqui alguns símbolos oficialmente
reconhecidos na Cidade de São Leopoldo. Assim, saliento algumas das
especificações simbólicas que são confessas e declaradas oficialmente e que
servirão para elucidar algumas afirmações de que existe uma hegemonia da
cultura alemã em detrimento às demais culturas da/na cidade.
Podemos começar pelos símbolos e heráldica
oficiais aqui extraído do texto que descreve o brasão oficial, que foi gestado
e está incrustados de simbologias germânicas, descrito e contido no site da
Câmara Municipal de Vereadores, onde em 22/06/1962, o então prefeito de São
Leopoldo, Siegbert Saft, sancionou a seguinte lei:
Art. 1º - O Brasão Municipal, criado
pela Lei nº 276, de 19 de maio de 1951, representativo do simbolismo do
Município, com a configuração do modelo anexo, integrante desta Lei, passa a
ter a seguinte característica e definição: [...] "Escudo clássico partido
em contrabanda pelo Rio dos Sinos, artéria inicial do povoamento e riqueza da
região do atual São Leopoldo, em campo de sinople (verde); em chefe, em campo
de gole (vermelho), das armas do Visconde de São Leopoldo, fundador da atual
cidade, um leão rompante, de ouro, sustentando um pinheiro de sua cor; em
ponta, em campo blau (azul), o monumento ao imigrante, inaugurado em 1924, em
prata, Coroa mural, de prata, de quatro torres. O todo ladeado por ramos de
acanto em ouro, gole e blau".
Recorremos também a outro símbolo, o Hino da
Cidade de São Leopoldo, intitulado “A marcha do Imigrante”, também discorre tão
somente sobre a colonização alemã, desprezando todas as outras etnias, peça
esta que Câmara Municipal de São Leopoldo reconheceu por Lei Municipal de n.º
4.257, de 26/06/1996, como segue:
[...] LEI MUNICIPAL Nº 4.257, DE
26/06/1996 [...] Institui "A MARCHA DO IMIGRANTE" como sendo o Hino
Oficial do Município de São Leopoldo.[...] Faço saber que a Câmara Municipal
aprovou e eu sanciono e promulgo a seguinte Lei:Art. 1º - Fica instituída a
letra e a música de "A MARCHA DO IMIGRANTE" como sendo o Hino Oficial
do Município de São Leopoldo. [...] Art. 2º - Torna-se obrigatório o ensino e a
execução do hino "A MARCHA DO IMIGRANTE" nas escolas da rede
municipal de ensino de São Leopoldo [...] Art. 3º - Esta Lei entra em vigor na
data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário. [...] Prefeitura
Municipal de São Leopoldo, 26 de junho de 1996.
Ainda sobre as caracterizações oficiais da
cidade, a frase ‘slogan’, termo que
deveria servir para caracterizar a todos de forma sintética e identificar a
principal definição do lugar, contém a expressão: “São Leopoldo, berço da colonização alemã” e é outra peça que está
declarada e materializada nas documentações oficiais e nos mais diversos
lugares e usos da localidade.
Seguindo
na busca pelas construções imagéticas equivocantes das peças representativas,
encontramos no site mais popular da internet, informações da cidade e onde está
lá declarado, na aba das informações técnicas, no campo “História” a fundação:
25 de Julho de 1824, onde:
[...] A data de 25 de julho de 1824 passou a ser
considerada a data de fundação de São Leopoldo. Instalados na feitoria até que
recebessem seus lotes coloniais, este núcleo foi batizado "Colônia Alemã
de São Leopoldo" em homenagem à Imperatriz Leopoldina, a esposa austríaca
de Dom Pedro I. Nesta época, era então governador do estado o Visconde de São
Leopoldo. Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/São_Leopoldo
Percebam que há um esquecimento ou ainda um
apagamento, talvez proposital, das demais etnias que formaram o povo
leopoldense. Não há nenhuma citação aos bravos carijós, aos desbravadores
lusitanos ou ainda aos trabalhadores africanos que já estavam por aqui quando
os alemães chegaram. Não há uma estrofe, nenhum slogam, nenhum brasão ou qualquer outra menção a que estes
descendentes miscigenados possam se sentir representados. Assim, necessário se
faz uma análise reflexiva na busca por reparação e retratação. O que acham?
Texto de Ramão Carvalho, Professor de História e Ativista Cultural para a Coluna JORNAL NOTICIÁRIO JN - Agosto/2023 - Ed. 291 - Pág. 11 COLUNISTAS.
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