Não aprendemos
nada!?
Fonte: 2022-08-17 – CARVALHO, Ramão. Não aprendemos Nada!?. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 11. São Leopoldo/RS. Edição 282, agosto/2022.
Não aprendemos
nada!?
Fonte: 2022-08-17 – CARVALHO, Ramão. Não aprendemos Nada!?. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 11. São Leopoldo/RS. Edição 282, agosto/2022.
Um salve ao dia 19 de Abril. Muito o que refletir e pensar no valor que o povo brasileiro dá para uma de suas raízes ancestrais... já pararam para pensar que a maioria dos descendentes desta pátria se referem aos povos originais como sendo algo estranho à sua natureza? As nações indígenas, verdadeiros donos destas terras são nossos antepassados, formam, juntos com os imigrantes europeus e os negros da diáspora africana a nação chamada breazail/Brasil... Somos TODXS parentes!
Não é só no "dia do índio", somos descendentes dos nossos ascendentes ancestrais!
Pela passagem do dia 11 de Abril, na comemoração do Dia da Escola de Samba, quero fazer uma homenagem a estes kilombos de resistência, em especial aos guetos de minha cidade. Estes locais de manifestação artística, que atualmente, resistem a uma opressão e uma demonização por parte da sociedade intolerante. Esta perseguição, possui muitas interpretações, mas a que mais se enquadra é a do preconceito, seguido de uma ignorância total, além da intolerância e da discriminação da cultura que é feita pelo povo, que aliás, é a maior expressão artística do Brasil e um dos símbolos culturais mais expressivos de nosso país: o carnaval.
Neste mundo carnavalesco, neste universo microcosmo da periferia, aprendi muito sobre a brasilidade e conheci o carnaval cultural na Escola de Samba Império do Sol, escola que foi a minha base para quase tudo que sei. Lá fui do apoio geral, fui coordenador e figurante de ala, saí da ala dos passistas, fui mestre sala, temista e dirigente em diversos cargos. Agremiação fundada pelo saudoso Rei Momo Beto, espaço onde fiz muitas amizades, que se fosse nominar, renderiam páginas e mais páginas. Foi para mim uma escola de samba e da vida!
Também me considero parte da Estação Primeira de São Léo, escola de samba da família da nossa saudosa Tia Dora, espaço de muitas outras amizades que por lá eu fiz, escola de samba da região central da cidade, gueto de tenacidade cultural. Sou também Acadêmicos Verde e Rosa, uma vez que lá tem muitos dos meus amigos e é a escola do coração do meu saudoso irmão Tom Astral. Lugar onde já escrevi enredo, dei oficinas de danças de mestre-sala, porta-bandeira e porta-estandarte, num projeto da Secretaria Municipal de Cultura, chamado de “Descentralização da Cultura”, que revelou destaques que estão até hoje figurando as apresentações das escolas de samba da região.
Na Imperatriz Leopoldense, que tive a honra de conduzir seu pavilhão, e que agora reformulada, com a mesma base e sede, agora chamada de Leões da Feitoria. Já desfilei na União da Vila do Saudoso passista Bira, onde o ajudamos em diversos carnavais, na coordenação, revisando enredos e organogramas. Sou também Imperadores do Sul, quando tenho por lá os meus amigos e frequentadores de minhas oficinas de danças do carnaval e que por lá abrilhantam as apresentações da escola, assim como de muitas amizades da Cohab Duque e cercanias, ponto de resistência cultural na zona sul da cidade.
Sou também Alambique Leopoldense, a considero especial por atender com carinho as pessoas do lugar onde vivi e morei e também por sua queridíssima matriarca que a todos acolhe. Inclusive fomos com a Escola de Samba Apito de Ouro da Cidade de Tapes/RS na sua fundação e no lançamento da escola, é um local onde estão muitos dos meus amigos e de gente que resiste produzindo cultura.
Nos meus enredos e pesquisas já fui muitas escolas de samba, desde a Imperadores do Samba, Imperatriz Dona Leopoldina, Embaixadores do Ritmo, Copacabana, Samba Puro e Bambas da Orgia na cidade de Porto Alegre. Já fui Unidos do Guajuviras de Canoas, Gigantes da Orla de Arroio do Sal/RS, Vila Isabel de Viamão, Unidos das Vilas de Venâncio Aires, Imperatriz da Zona Norte de Cruz Alta, Unidos do Capão e Império do Vale de Sapucaia do Sul, Apito de Ouro e Corujão de Tapes, Asas da Liberdade de Estância Velha, Cruzeiro, Protegidos e Marujos de Novo Hamburgo, entre tantas outras entidades, quilombos de resistência cultural.
Ressalto que para mim, o dia da escola de samba deva, na realidade, ser comemorados todos os dias, uma vez que estes organismos são kilombos de perseverança, nunca param, nunca desistem e estão sempre a planejar e programar o ano vindouro, com um novo enredo e pesquisas, na construção de novas fantasias, de uma nova música, que é o samba enredo, as alegorias, as coreografias, enfim, unindo e reunindo a comunidade em torno da construção de um espetáculo, mas que vai para muito além disso, prestando ajuda e assistência social, transformando muitos destes em profissionais para pensar e preparar uma nova apresentação, capacitando pessoas, gerando renda, produzindo cultura e encantando as pessoas.
_Kilombo ou quilombo é o nome dado aos espaços e comunidades que se formaram a partir de situações de resistência territorial, social e cultural no Brasil. Os primeiros quilombos surgiram no período colonial por pessoas negras escravizadas que se refugiavam em busca de liberdade e que se organizavam em comunidades autônomas.
Fonte: 2022-04-12 – CARVALHO, Ramão. Os nossos kilombos urbanos. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 09. São Leopoldo/RS. Edição 278, abril/2022.
A ALEGRIA SOCIAL DO CARNAVAL
Por Ramão Carvalho [1]
Carnaval
é tempo de alegria, uma data festiva que existe há milênios, conforme os
autores Hiram Araújo, 2003 e Felipe Ferreira, 2005, entre tantos outros autores
e trabalhos memoráveis, com obras magníficas para quem quer se aprofundar em um
tema tão vasto e rico. O carnaval existe em todo o planeta, porém o do Brasil é
o mais expressivo, tendo diversas características, desde os blocos brincantes
até o espetáculo das escolas de samba. O samba e o carnaval são símbolos
culturais do Brasil e para quem é genuinamente patriota, entender o carnaval,
conhecer e reconhecer que esta ópera a céu aberto é como um patrimônio cultural
é um ato de brasilidade. No carnaval há música, poesia, danças, artes plásticas
e muita informação técnica, verdadeiras aulas populares e públicas, que são
manifestadas com grande entusiasmo e devoção pelas comunidades e pelo povo
carnavalesco.
Quando pensamos em carnaval e em escolas de samba, de pronto, imaginamos os desfiles, apoteóticcos de Rio de Janeiro e de São Paulo, principalmente aqueles que são transmitidos pela grande mídia televisiva, porém, muito além dos desfiles, as escolas de samba possuem um grande quadro de pessoas e de intenso trabalho profissional. Com a finalidade de levar alegria e entretenimento para quem assiste aos seus desfiles, as pessoas são fundamentais para a realização destes espetáculos, considerados as maiores expressões culturais do mundo, como diz Aroldo Costa, 2007: “uma verdadeira ópera a céu aberto”, manifestação cultural reconhecida pelo Guines Book, o livro de registro de recordes.
Para
iniciar o ano carnavalesco, geralmente ao término dos desfiles, iniciam-se as
atividades para definir o ano vindouro, daí surgem todas as atividades de
reciclagem dos materiais utilizados (esta atividade cresce, devido aos parcos
investimentos em cultura), a definição do enredo, a pesquisa literária e
histórica que será a base para o samba, para a música, para os figurinos, ou o
desenho das fantasias e das alegorias e de toda a caracterização do contingente
que desfila em uma escola ou bloco carnavalesco.
Até
aí, esta é a uma das atividades macro e que ocupa uma série considerável de
profissionais e voluntários em sua execução. Para formar esta mão-de-obra muito
específica, as escolas que tem sua comunidade engajada e comprometida, formam
estes artistas na sua base, pois não há curso específico para profissionais do
carnaval, é o caso do aprendizado dos cantores e intérpretes, dos músicos e percussionistas,
dos bailarinos e dançarinos, dos aderecistas, figurinistas, e assim por diante,
onde recebem ensinamentos e orientações para a finalidade de se manifestar
artisticamente nos grandes espetáculos.
O
caso da Sociedade Cultural, Beneficente e Carnavalesca Império do Sol, que
desenvolve oficinas de formação e capacitação em praticamente todas as
atividades relacionadas ao carnaval. Esta Escola de Samba, localizada na cidade
de São Leopoldo/RS, recebe em sua sede, denominada de quadra de ensaios,
pessoas de toda a região metropolitana para socializar a alegria do carnaval,
mas também capacita e desenvolve artistas para o carnaval, não só para suas
apresentações, como para outras co-irmãs da região.
As
“oficinas de formação” são das mais diversas, como de bateria (percussão),
decoração de alegorias e adereços, corte e costura, reciclagem de materiais,
danças do carnaval, atividades relacionadas à administração, marketing, etc...
a escola também recebe alunos para estágio não remunerado e também serviços e
trabalhos voluntários. Vale ressaltar que para participar da escola de samba,
não precisa saber sambar, isso é uma lenda! Aqui todos tem sua parcela de
importância, assim como os que sambam, tem os que tocam, cantam, administram,
enfim, um espaço social amplamente democrático.
Fontes:
ARAÚJO, Hiram. Carnaval: seis milênios de história.
Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.
FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval
brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005
COSTA, Haroldo. Politica e religiões no carnaval. Irmãos
Vitale, 2007.
Preconceito, racismo e intolerância
O preconceito, o racismo e a intolerância são três problemas psicossociais crônicos que precisamos tratar e curar! As raias destes distúrbios estão nas motivações hediondas de menosprezar, desvalorizar e no desdém dos “diferentes”, ou ainda daquele que “incomoda” a natureza do que ataca. Estas manifestações preconceituosas, racistas e intolerantes, que geralmente passam a injuriar, perseguir, desmoralizar e violentar a todos aqueles que não correspondem com os padrões idealizados do discriminador. Atitudes e comportamentos desonrosos que estão sendo a cada dia mais, visualizados pela grande mídia.
O preconceito, como revela o termo, é o sentimento pré conceituado, sem reflexão ou conhecimento, dotado de ignorância e hostilidade, que é assumido em consequência da generalização apressada do desconhecido, seja pela pequena experiência pessoal ou imposta pelo meio. Esta ação de juízo possui diversas origens e que talvez, tenha na misoginia, o primeiro dos preconceitos, seguidos do preconceito de classe, do econômico, de posição social, na cor de pele, na formação étnica, etc, etc…
O historiador Leandro Karnal nos conta que, quando indagado por uma inglesa, sobre o problema de cruzamento de raças no Brasil, ele respondeu a ela que formação da Inglaterra e do povo inglês também se originou de cruzamentos de celtas, bretões, romanos, anglo-saxões, vikings, normandos, ou seja, também se trata de um povo miscigenado, assim como a maioria das nações europeias, onde é equivocada a noção de pureza de raças. O mesmo Leandro Karnal foi brilhante em identificar que o preconceito contra gays (LGBTQIA+), onde nos diz que: "[…] do ponto de vista psicanalítico, todo ataque homofóbico é sempre o choque entre dois gays, o que vive a sua sexualidade e o que tem vergonha e medo da sua sexualidade, que é aquele que ataca […]".
O racismo é dos problemas citados, o mais nocivo, o mais severo, o mais danoso, um sentimento inexplicável, onde a exclusão, a desigualdade social e a violência, desencadeiam atitudes bizarras e inconcebíveis. Não há argumentação, explicação ou fundamento para estas condutas! O professor Kabenguele Munanga, que luta contra o racismo nos diz que: “[…] todos os racismos são abomináveis e cada um faz as suas vítimas do seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, mas ele tem as suas peculiaridades [...]”. O professor Sílvio de Almeida (2019) caracteriza o racismo no Brasil como sendo estrutural, pois criou um sistema para segregar e manter negros e negras na exclusão, na subalternidade e longe do poder. Abdias do Nascimento e diversos intelectuais discorrem da dificuldade de reinserção na sociedade desde o 1888, onde ações racistas, segregadoras e discriminatórias, desde as práticas mais simples presentes naquelas expressões non gratas, até a violência e a morte, revelando sentimentos cristalizados e reproduzidos por gerações nas ações e nas atitudes tóxicas dos racistas.
A intolerância é outra ação avassaladora dos sentidos, pois é e foi construída e constituída há muitos e muitos anos, por processos de reprodução do ódio, onde os indivíduos, dotados de sua “supremacia”, declaram ser e ter a suas características, cultura, nação e religião, as melhores que existem, as mais “evoluídas”, a natureza linguista a mais rica, a sua religião como a única e a legítima representante de Deus, enquanto que as demais são inúteis, hereges, pagãs, atrasadas… assim a intolerância e o preconceito seguem a pleno, sendo repetidas de geração em geração, amplificando o menosprezo xenófobo e intolerante.
Pode-se afirmar que no Brasil, ser preconceituoso, intolerante e racista é um atestado de burrice! Afirmo isso porque no país mais miscigenado do mundo, não há nenhuma pureza racial, não há autenticidade, puridade ou purismo de cor, de credo, de linguagem, de estilos, de expressão e de cultura. Não somos 100% nada! Precisamos tratar esta doença da alma, para mitigar e curar este mal psicológico e comportamental, o qual não possui nenhuma explicação plausível para a sua existência.
Compreendo
que o preconceito a intolerância e o racismo seguem juntos sua caminhada nociva
e mortal. Sabedores destes defeitos psíquicos, devemos criar dispositivos para
livrar-se destes miasmas e, livres destas imbecilidades que nos dividem, que
violenta a existência dos semelhantes, atos que não agregam valor, que
atrapalham o desenvolvimento social e cultural, assim, livres destas tolices
inexplicáveis, vamos progredir imensamente. Sejamos conscientes de que somos
uma nação colorida em todos os sentidos e que viveremos em um país mais justo,
mais igualitário e mais evoluído quando houver esta compreensão.
CARVALHO, Ramão. Preconceito, racismo e intolerância. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Edição 272, outubro/2021.
Fontes mencionadasCASTRO, Yeda Pessoa de. A influência das línguas africanas no português brasileiro. Secretaria Municipal de Educação- Prefeitura da Cidade de Salvador, p. 3-12, 2005.RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
CARVALHO, Ramão. O tempero de um Brasil brasileiro. Matéria da coluna Jornal Noticiário. Página 14. São Leopoldo/RS. Fevereiro/2022.